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Astrônomos descobrem “fantasma cósmico” raro na Via Láctea

Remanescente de supernova Abeona é um dos mais tênues já detectados e pode ajudar a explicar partículas de alta energia

Por Sputnik Brasil 29/04/2026 12h12
Astrônomos descobrem “fantasma cósmico” raro na Via Láctea
Descoberta pode ajudar a entender partículas de alta energia no espaço - Foto: © Foto / NASA / CXC / M.Weiss

Abeona, um dos remanescentes de supernova de rádio mais tênues já identificados, foi confirmado por astrônomos a partir de dados do radiotelescópio ASKAP. A descoberta revela uma vasta casca não térmica fora do plano galáctico, trazendo novas pistas sobre a aceleração de partículas de alta energia na Via Láctea.

O objeto, inicialmente sugerido como possível remanescente de supernova (SNR, na sigla em inglês) em 2014, teve sua natureza confirmada por uma equipe internacional liderada por Christopher Burger-Scheidlin após observações detalhadas.

Abeona recebeu o nome da deusa romana das viagens porque a estrela que a originou se afastou do centro da galáxia antes de explodir.

Atualmente, Abeona aparece como uma grande nuvem em formato de casca, extremamente tênue e de difícil detecção, emitindo radiação característica de eventos violentos como supernovas.

Imagem de intensidade total do ASKAP em 943,5 MHz mostrando Abeona (G310.7–5.4), um remanescente de supernova extremamente tênue. Intensidade total indica o brilho captado em ondas de rádio, enquanto 943,5 MHz corresponde à frequência observada pelo radiotelescópio
Imagem de intensidade total do ASKAP em 943,5 MHz mostrando Abeona (G310.7–5.4), um remanescente de supernova extremamente tênue. "Intensidade total" indica o brilho captado em ondas de rádio, enquanto 943,5 MHz corresponde à frequência observada pelo radiotelescópio.

Com brilho superficial extremamente fraco, Abeona está entre os remanescentes de supernova de rádio mais difíceis de mapear. Os pesquisadores estimam que o objeto tenha cerca de 137 anos-luz de diâmetro e esteja localizado a aproximadamente 16 mil anos-luz da Terra, situado 1.500 anos-luz abaixo do plano galáctico.

As observações detectaram polarização linear na parte norte da casca, típica de emissão sincrotron — fenômeno que ocorre quando elétrons são acelerados a velocidades próximas à da luz por campos magnéticos em espiral. Além disso, há coincidência espacial com uma fonte de raios gama, sugerindo aceleração de partículas de alta energia. Esses fatores reforçam a classificação de Abeona como um SNR.

A ausência de um objeto compacto remanescente e sua posição fora do plano galáctico indicam que Abeona provavelmente se originou de uma supernova do tipo Ia, resultado da explosão de uma estrela anã branca — pequena, porém extremamente densa. O remanescente agora integra um seleto grupo de objetos de alta latitude que apresentam emissão energética significativa.

De acordo com os autores, remanescentes como Abeona são fundamentais para investigar os processos de aceleração e difusão de raios cósmicos no meio interestelar. A descoberta ressalta a importância de levantamentos de rádio de alta sensibilidade para identificar estruturas tênues e pouco exploradas da Via Láctea.