Nacional
Investimentos renovam expectativas para o setor naval após quase uma década de retração
Financiamento de 15 projetos reacende o setor após quase uma década de crise, amplia a geração de empregos e reforça as perspectivas para estaleiros e infraestrutura portuária
O Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante aprovou neste mês o financiamento de 15 projetos voltados à construção, modernização e reparação de embarcações, além de investimentos na infraestrutura portuária. A medida marca um novo ciclo de investimentos e reacende as esperanças de recuperação da indústria naval brasileira, que enfrenta quase uma década de retração.
Impulsionada pela descoberta do pré-sal e pelos investimentos da Petrobras a partir de 2006, a indústria naval brasileira viveu um boom e chegou a empregar mais de 82 mil pessoas em 2014, com quase 40 estaleiros em operação, especialmente no Rio de Janeiro. No auge, o país ocupou a posição de segundo maior produtor mundial de navios, em 1973.
Contudo, a partir de 2015, a crise econômica, os efeitos da Operação Lava Jato e a queda do preço do petróleo reduziram drasticamente as encomendas e provocaram forte retração. Em apenas dois anos, metade dos trabalhadores foi demitida, e a produção industrial do setor caiu de R$ 6,8 bilhões em 2014 para R$ 1,97 bilhão em 2016, segundo o IBGE.
Durante a campanha eleitoral de 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu retomar o setor com encomendas da Petrobras, recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM) e financiamentos do BNDES. Quase quatro anos depois, os primeiros projetos começam a sair do papel, incluindo a produção de cinco navios gaseiros para transporte de GLP pela Petrobras e navios-patrulha para a Marinha.
Para Levi Salvi, professor de engenharia civil da Universidade Federal Fluminense, o anúncio representa um passo relevante, mas ainda insuficiente para garantir uma retomada consistente. “A indústria naval é complexa e exige políticas permanentes de longo prazo. Previsões de investimento nem sempre se concretizam devido à falta de mão de obra especializada, desafios tecnológicos e cortes de recursos”, pontua.
Salvi destaca ainda a importância de manter políticas públicas independentemente de mudanças de governo, citando o sucesso da indústria aeronáutica nacional em parceria com o ITA. Ele também aponta que o segmento de embarcações de esporte e recreio, com mais de 70 estaleiros no país, ainda carece de apoio do FMM, apesar de sua relevância para exportações e geração de empregos.
Estaleiros apostam em retomada após crise prolongada
O Estaleiro Mauá, fundado em 1845 em Niterói (RJ), ilustra a trajetória do setor. Com mais de 160 embarcações construídas e quase 640 reparadas, chegou a empregar mais de 5 mil pessoas em seu auge recente. Com a crise, o quadro caiu para 700 funcionários em 2020, mas já voltou a 1.400 este ano. “Ainda estamos longe do que já tivemos, mas estamos investindo em máquinas, treinamento e certificações para voltar a construir navios”, afirma o CEO Miro Arantes.
Em recuperação judicial desde 2024, o Mauá renegociou dívidas e busca habilitação para novos contratos. Arantes vê sinais de recuperação, mas alerta para a necessidade de continuidade nas políticas de incentivo e proteção ao conteúdo local. Ele cita como exemplo a abertura para importação de navios e equipamentos sem contrapartidas, o que prejudicou a indústria nacional.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, Melquizedeque Cordeiro, reforça que, apesar das iniciativas, todos os estaleiros da capital fluminense seguem fechados ou em recuperação judicial, como o caso do Estaleiro Inhaúma, que encerrou atividades em 2016.
Emprego e capacitação voltam a crescer no setor
Para o presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha, a retomada é uma realidade, impulsionada por projetos para Petrobras, Transpetro e empresas prestadoras de serviço. Os recursos aprovados pelo FMM beneficiam estaleiros em várias regiões do país e já permitiram que o setor recuperasse o nível de emprego anterior à crise: cerca de 90 mil trabalhadores em junho deste ano, acima dos 82,4 mil de dezembro de 2014.
Para atender à demanda, estaleiros e instituições como Senai e Cefet ampliaram cursos de formação técnica, e universidades federais reforçam a qualificação de mão de obra. “A cadeia de fornecedores está sendo fortalecida e deve aumentar o conteúdo local dos projetos”, afirma Rocha.
Desafios à competitividade e à inovação
Apesar dos avanços, o contra-almirante Alan Paes Leme destaca que o volume de encomendas ainda é pequeno diante da capacidade histórica do setor. Até os anos 1980, o Brasil era o segundo maior construtor naval do mundo, atrás apenas do Japão. Hoje, países como Coreia do Sul entregam um navio por semana, enquanto a produção nacional é bem mais modesta.
Paes Leme aponta a dispersão da cadeia produtiva e o aumento dos custos logísticos como fatores que prejudicaram a competitividade. “Durante o auge, estaleiros e fornecedores estavam concentrados na baía de Guanabara. A descentralização elevou custos e dificultou a logística”, observa.
Para o especialista, a sustentabilidade do setor depende de inovação, planejamento e especialização em nichos ainda pouco explorados, como já ocorreu na indústria de petróleo em águas profundas.
Setor naval é estratégico para o Brasil
Com mais de 7 mil quilômetros de litoral e a maior rede hidrográfica do mundo, o Brasil tem condições naturais que tornam a indústria naval estratégica para a economia e a soberania nacional. “A autonomia na construção naval é fundamental para o Brasil, que precisa garantir a defesa de sua extensa costa e do mar territorial”, defende Levi Salvi.
Miro Arantes, do Estaleiro Mauá, reforça: “Uma indústria naval forte é essencial para a defesa do país. Precisamos ter condições de proteger nossas plataformas e nosso mar territorial”.
