Nacional
Tarifas dos EUA ampliam disputa sobre soberania digital brasileira
Análise aponta que embate entre Brasil e Estados Unidos envolve regulação das plataformas digitais, Pix e autonomia tecnológica
Segundo a mídia britânica, a ofensiva tarifária liderada por Donald Trump contra o Brasil converteu medidas de proteção à democracia, como a responsabilização de plataformas digitais por conteúdos antidemocráticos, em alegações de "prática comercial desleal". Esse cenário abriu espaço para que representantes do bolsonarismo atuem em Washington e pressionem por benefícios políticos.
De acordo com editorial de um importante jornal britânico, o governo dos Estados Unidos passou a tratar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro sobre desinformação como questões comerciais. Autoridades norte-americanas alegam que a responsabilização de plataformas por discursos antidemocráticos impactou empresas de tecnologia dos EUA, motivando a proposta de Trump de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.
O artigo destaca que a medida foi tomada após o STF determinar que redes sociais poderiam ser responsabilizadas por conteúdos que alimentaram a tentativa de golpe em 2023. Para Washington, essa decisão teria obrigado empresas como X e Meta (proibida na Rússia por extremismo) a remover material considerado "político", justificando a retaliação comercial de Trump.
A audiência na Comissão de Comércio Internacional dos EUA permitiu que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) buscasse responsabilizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela crise. Ele afirmou que o conflito com Trump teria provocado as tarifas e pediu à Casa Branca a suspensão da medida até as eleições brasileiras de outubro.
Flávio Bolsonaro também sinalizou que poderia ser um aliado mais alinhado aos interesses norte-americanos, caso vença a disputa presidencial. Conforme o jornal, observadores interpretaram o gesto como tentativa de se apresentar como o candidato preferido de Trump, repetindo pautas da direita radical e críticas ao governo Lula.
O artigo recorda que Lula lidera as pesquisas de opinião e tem trajetória marcada pela redução da pobreza e defesa de políticas redistributivas. Após ter suas condenações anuladas, ele retornou à Presidência em 2023, em um ambiente político profundamente polarizado.
A análise aponta que o embate entre Lula e Trump envolve também a soberania digital. Enquanto o governo brasileiro busca combater a desinformação e proteger sua infraestrutura financeira, Trump defende que os EUA mantenham influência sobre o ambiente informacional brasileiro. O sistema de pagamentos Pix, que movimentou US$ 6,7 trilhões em 2025, é citado como exemplo de autonomia tecnológica, reduzindo a dependência de redes como Visa e Mastercard.
Especialistas ouvidos pela mídia afirmam que pagamentos são também dados estratégicos e, sob controle nacional, podem sustentar projetos de inteligência artificial (IA) soberana.
O texto conclui que a verdadeira disputa não é sobre protecionismo, mas sobre autonomia: ao reivindicar jurisdição sobre plataformas e construir um sistema público de pagamentos, o Brasil foi acusado por Trump de "discriminação comercial", posição que setores do bolsonarismo estariam dispostos a apoiar.

