Cooperativismo

Jornada de intercooperação incentiva a agricultura familiar em Alagoas

Evento contou com palestras e painéis temáticos e resultou na formação de um Grupo de Trabalho

17/04/2026 14h02
Jornada de intercooperação incentiva a agricultura familiar em Alagoas
Evento aconteceu nesta semana em Maceió com a participação de lideranças e profissionais do setor - Foto: Reprodução/Instagram

Cerca de 60 pessoas estiveram reunidas na Jornada da Intercooperação do Agro, realizada na terça-feira (15), pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo de Alagoas (Sescoop/AL). Além de palestras e painéis temáticos, o encontro, que aconteceu em Maceió, resultou na formação de um Grupo de Trabalho (GT) para trabalhar soluções conjuntas e estratégicas que possam fortalecer o desenvolvimento das cooperativas com base na intercooperação.

Os participantes puderam trocar experiências e participar de forma ativa do evento que fez da capacitação um espaço democrático de construção coletiva, por meio das palestras, painéis e da oficina prática para a construção da proposta de intercooperação do ramo agro. A proposta foi estruturada considerando os eixos Governança e Gestão; Mercado e Expansão; Sustentabilidade e Educação; e Tecnologia e Inovação.

Segundo Silvio Giusti, consultor com 35 anos de experiência no cooperativismo e facilitador da oficina, a intercooperação pode alavancar negócios e projetar o cooperativismo para um novo estágio de atuação, competitividade e impacto. Para ele, construir uma proposta de um projeto piloto de intercooperação é a chance de identificar oportunidades de intercooperação no mesmo ramo ou em ramos diferentes no cooperativismo alagoano.

“Este foi o pontapé inicial para estimular a aproximação das cooperativas do ramo com o viés de trocarem experiências e realizarem negócios conjuntos, fortalecendo laços de relacionamento, impactando seus resultados socioeconômicos e concretizando as oportunidades que envolvem seus ambientes. A intercooperação anda junto com a sustentabilidade do negócio cooperativista e é isso que queremos”, explicou Sílvio.

O GT de Intercooperação Agro é formado por representantes das cooperativas: Cooperativa dos Agricultores Familiares do Sertão de Alagoas (Cafisa), Cooperativa Vale do Paraíba, Roça do Vale, Cooperativa dos Produtores Rurais do Vale do Satuba (Coopervales), Cooperativa de Agricultores Familiares do Semiárido Brasileiro (Coofasa), Cooperativa dos Produtores Agropecuários do Estado de Alagoas (Coopal), Cooperativa Agropecuária e Industrial de Arapiraca (Capial), Cooperativa dos Produtores Rurais de Arapiraca (Cooperal) e Cooperativa dos Pequenos Agricultores Organizados (Coopeagro).

O grupo será responsável por conduzir os próximos passos da iniciativa, incluindo o mapeamento de demandas comuns e a construção de um plano de ação colaborativo.

Caso de Sucesso


Um dos casos de sucesso apresentados na jornada foi o da Cooperativa de Produção e Consumo Familiar Nossa Terra (Coopnossa Terra), sediada no Rio Grande do Sul. A cooperativa iniciou suas atividades sem ter suporte de instituições públicas e nem as condições ideais, mas com vontade de mudar a realidade das comunidades locais, gerando renda, trabalho e novas oportunidades.

A Nossa Terra existe há 25 anos e hoje tem 1250 cooperados. De acordo com Adelmir Gaiardo, presidente da Coop Nossa Terra, foram pelo menos nove anos sem nenhuma linha de crédito. Para ele, o segredo é a união, organização e disposição para fazer acontecer.

“Já passamos por muitas dificuldades e aprendemos que é possível sem recursos, sem condições financeiras e sem acesso a crédito, fazer desenvolver as pequenas propriedades e a cooperativa com muita organização, com solidez e com acesso a mercado. Atualmente, somos uma experiência positiva com atuação em 11 estados do Brasil, faturando R$162 milhões. Esta é a mensagem que esperamos deixar para as cooperativas em Alagoas: se unam e criem o ambiente favorável para crescerem juntas”, destacou Gaiardo.

Campanha Escolha o Coop


Durante a programação, Alécio Mascarenhas destacou a importância da identificação e valorização dos produtos das cooperativas, como estratégia para fortalecimento de mercado. Ele ressaltou o papel de iniciativas como o selo SomosCoop, que contribuem para dar visibilidade à origem cooperativista e gerar reconhecimento junto aos consumidores. Além disso, apontou as possibilidades de conexão com a campanha nacional sistêmica Escolha o Coop, incentivando as cooperativas a integrarem suas ações locais ao movimento nacional, ampliando alcance, posicionamento e oportunidades de comercialização de forma coordenada.

Problemas comuns, soluções compartilhadas


Outra experiência apresentada aos participantes foi a Redecoop - Associação da Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Rio Grande do Sul. A associação conta com 55 cooperativas organizadas e atua com foco em aspectos operacionais de organização da gestão e logística. Já é considerada uma das maiores estratégias de intercooperação do Brasil.

Bruno Justin, coordenador da Redecoop, explica que um dos problemas comuns das cooperativas é conseguir escoar a produção dos agricultores familiares por dificuldades de logística. Foi diante deste cenário, porém reconhecendo o potencial da região, que em 2017 surgiu a Redecoop.

“A Rede permitiu elaborar uma logística de distribuição compartilhada o que possibilitou que cooperativas da região conquistassem mercados mais amplos. A cooperação é o caminho para resolver muito dos problemas comuns que temos nas cooperativas de todo o país. Foi fundamental para nós que as cooperativas identificassem as dificuldades, dialogassem em um espaço comum, para se organizar e fazer com que os processos passassem a ser executados de forma conjunta. Só assim conseguimos avançar”, explicou Justin.

Para ele, esse diálogo é fundamental para que as cooperativas avancem no acesso a novos mercados e possam levar geração de renda a quem está na ponta que é o agricultor e agricultora familiar.

“As mais de 50 cooperativas da Rede estão em 31 municípios do estado do Rio Grande do Sul e com isso são milhares de famílias impactadas por esta iniciativa. Alagoas precisa reconhecer este potencial e fazer da intercooperação um instrumento de desenvolvimento”, finalizou.

As jornadas


O ramo agro se apresenta com grande potencial cooperativo em Alagoas. Mas, além dele, o Sescoop/AL seguirá com a agenda de Jornadas de Intercooperação em outros ramos, ampliando o debate e incentivando a prática em diferentes segmentos do cooperativismo.

Para Adalberon Sá Júnior, superintendente do Sescoop/AL, a jornada foi um chamado à ação.

“Uma reflexão sobre o que as cooperativas podem fazer junto umas com as outras para se fortalecerem e se prepararem para as oportunidades de negócios que já existem. Além do que se refere à intercooperação, mas também em soluções para a governança, para a gestão, para a inovação, todas as cooperativas alagoanas podem contar com nosso time. O Sescoop Alagoas é um apoiador, mas são as cooperativas que devem fazer acontecer. Sem esse compromisso nada vai para frente! Por isso, que essa jornada foi um convite para a ação", destacou Adalberon.

Mais do que encontros pontuais, a iniciativa das Jornadas aponta para um movimento estruturado de fortalecimento do cooperativismo no estado, com foco em soluções conjuntas, ganho de escala e ampliação de mercado.

O desafio agora é transformar as conexões iniciadas em ações concretas, capazes de gerar impacto real na competitividade das cooperativas e na renda de quem está na ponta. Em um cenário que exige cada vez mais organização e estratégia, a intercooperação deixa de ser uma alternativa e se consolida como caminho para o desenvolvimento sustentável do cooperativismo alagoano.