Ciência, tecnologia e inovação
Astrônomos identificam possíveis sinais de fusão de buracos negros na galáxia
Estudo aponta que sistema em Markarian 501 pode colidir em menos de um século, evento raro na astronomia
Uma análise inédita da galáxia blazar Mrk 501 aponta para a existência de dois buracos negros supermassivos em órbita estreita, formando um sistema tão compacto que pode colidir em menos de um século. O fenômeno oferece à ciência uma oportunidade rara de testemunhar, em tempo real, a fusão de gigantes cósmicos.
Localizada a cerca de meio bilhão de anos-luz da Terra, a galáxia Mrk 501 pode proporcionar a inédita possibilidade de acompanhar, dentro de uma escala humana, a colisão de dois buracos negros supermassivos. Uma nova análise de sua luz peculiar sugere que o núcleo da galáxia abriga dois desses gigantes, cada um emitindo seu próprio jato relativístico.
A hipótese, apresentada pela astrônoma Silke Britzen e sua equipe do Instituto Max Planck, ainda não é conclusiva, mas atualmente é a explicação mais consistente para o comportamento atípico de Mrk 501. Caso seja confirmada, representará um marco para a astronomia.
Buracos negros supermassivos são encontrados no centro da maioria das grandes galáxias, mas sua origem e crescimento permanecem entre os maiores mistérios da cosmologia. Embora já se compreenda o processo de formação e fusão de buracos negros estelares, ainda não se sabe como alguns atingem massas equivalentes a milhões ou bilhões de sóis — em parte porque não foi possível detectar ondas gravitacionais provenientes da fusão individual desses colossos.

Mrk 501, no entanto, oferece pistas raras. Seus jatos brilhantes e o disco de acreção tornam o núcleo extremamente luminoso, dificultando a observação detalhada. Ainda assim, Britzen e sua equipe analisaram 23 anos de dados de radiotelescópios de ultra-alta resolução, rastreando o movimento de estruturas dentro do jato principal. O padrão observado revelou algo inesperado: um segundo jato mais fraco, que parece orbitar o núcleo.
As modelagens indicaram dois sinais distintos: um ciclo de sete anos, compatível com oscilações nos jatos, e outro de cerca de 121 dias, que pode corresponder ao período orbital de dois buracos negros separados por uma distância extremamente pequena — entre 250 e 540 vezes a distância da Terra ao Sol. Em termos astronômicos, isso equivale a apenas 0,0026 parsecs, muito abaixo do chamado "problema do parsec final", que prevê que pares tão próximos deveriam permanecer presos, sem conseguir se aproximar ainda mais.
Se essa separação minúscula for confirmada, Mrk 501 pode ser a evidência de que alguns sistemas binários conseguem superar essa barreira teórica e seguir rumo à fusão. Isso tornaria o par um dos candidatos mais promissores para uma colisão iminente em escala humana — menos de 100 anos, segundo os pesquisadores.
Uma fusão tão próxima poderia ser detectada por redes de monitoramento de pulsares, que são sensíveis a ondas gravitacionais de baixa frequência. Como destaca o astrônomo Héctor Olivares ao portal Science Alert, seria possível acompanhar o aumento gradual da frequência dessas ondas à medida que os dois gigantes se aproximam, proporcionando uma oportunidade única de observar um evento cósmico que, até então, existia apenas na teoria.

