Política
Lula deve adotar tom eleitoral na ONU e reforçar soberania diante de lídere
A expectativa é que a tribuna da ONU volte a ser utilizada como palanque político, em linha com discursos de anos anteriores
A duas semanas das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve utilizar a abertura da Assembleia Geral da ONU (AGNU) para reforçar a defesa da soberania nacional e pedir que os Estados Unidos não interfiram no pleito brasileiro. Diplomatas ouvidos pela imprensa preveem um discurso com forte tom eleitoral, direcionado ao público brasileiro, mesmo diante de líderes mundiais.
Segundo fontes do Itamaraty, Lula pretende abordar temas sensíveis para o eleitorado, como a proteção da soberania e a rejeição de interferências externas, especialmente dos EUA, eixo central de sua fala. O presidente deve aproveitar a visibilidade internacional para dialogar indiretamente com os 154 milhões de eleitores brasileiros.
A expectativa é que a tribuna da ONU volte a ser utilizada como palanque político, em linha com discursos de anos anteriores, nos quais presidentes brasileiros destacaram realizações e políticas internas. Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, avalia que Lula deve criticar políticas unilaterais dos Estados Unidos, principalmente do ex-presidente Donald Trump, ainda que sem citá-lo diretamente, inserindo a soberania nacional no centro da narrativa.
O Itamaraty, contudo, afirma que o discurso também apresentará iniciativas e visões internacionais do governo, sem se limitar a um balanço de gestão.
Um dos pontos de atenção da agenda é a possibilidade de encontro entre Lula e Trump, já que o discurso do ex-presidente norte-americano sucede o do brasileiro. Em 2025, ambos chegaram a trocar um breve abraço, gesto que repercutiu internacionalmente e sinalizou uma aproximação até então improvável. Para este ano, não há reunião marcada, e diplomatas ressaltam que qualquer aproximação dependerá do contexto, considerando a imprevisibilidade da relação bilateral, marcada por tarifas, oscilações na aplicação da Lei Magnitsky, negativas de vistos e críticas de Trump sobre o combate ao crime organizado no Brasil.
Lula deve reiterar, segundo apuração, que não aceita interferência dos EUA e destacar ações de enfrentamento ao crime organizado, respondendo às críticas de Trump sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Além desses pontos, o discurso de Lula deve abordar temas tradicionais da diplomacia brasileira, como o combate à fome, redução das desigualdades, defesa do multilateralismo e referências a conflitos internacionais, incluindo Gaza, Irã e Ucrânia. A situação da Venezuela, por ser ano eleitoral, deve ser tratada com cautela para evitar desgaste interno.
A passagem de Lula por Nova York será breve, equilibrando a importância do cenário global com a necessidade de retorno rápido à campanha eleitoral. A comitiva será enxuta, composta pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira; pela ministra dos Povos Indígenas e candidata à reeleição, Sônia Guajajara; e pela ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros.
O presidente também deve se reunir com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, após ajustes diplomáticos na agenda. O encontro é estratégico tanto para Mamdani, que busca projeção no movimento progressista internacional, quanto para o Partido dos Trabalhadores (PT), que enxerga no prefeito uma liderança jovem de potencial global. No entanto, uma aproximação pode gerar atritos com Trump, especialmente diante das negociações comerciais sensíveis entre Brasil e Estados Unidos.
