Política
Parlamentares argentinos buscam reaproximação com o Brasil após crise
"A Argentina é quem mais sofre danos nesse contexto, pois o Brasil é seu principal parceiro comercial"
Uma delegação de parlamentares da oposição argentina desembarca em Brasília na próxima semana com o objetivo de restabelecer os laços bilaterais, abalados após os insultos do presidente Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "A Argentina é quem mais sofre danos nesse contexto, pois o Brasil é seu principal parceiro comercial", avaliou um especialista ouvido pela Sputnik.
O grupo, formado por deputados e senadores de pelo menos cinco partidos de oposição, busca reverter o clima de tensão diplomática que se instalou após as declarações de Milei. A delegação estará na capital federal entre 1º e 3 de setembro e pretende se reunir com a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado brasileiro, presidida por Nelsinho Trad (PSD-MS), além de realizar encontros no Itamaraty e com representantes da Presidência da República.
Entre os confirmados estão Nicolás Massot (Encuentro Federal), idealizador da missão; Maximiliano Ferraro (Coalizão Cívica/CC); Esteban Paulón (Partido Socialista); Martín Lousteau (União Cívica Radical/UCR); Oscar Herrera Ahuad (Innovación Federal) e Eduardo Falcón (Movimento de Integração e Desenvolvimento/MID). O grupo reúne parlamentares de partidos moderados em relação à Casa Rosada.
Massot defendeu a iniciativa na Câmara dos Deputados da Argentina, afirmando que "nenhum mandato eleitoral, por mais forte que seja, permite ao Poder Executivo atropelar quarenta anos de relações bilaterais estratégicas". O parlamentar classificou como "irresponsável" o desgaste com o principal parceiro comercial argentino na América do Sul.
A crise teve início em 25 de julho, quando Milei, durante um evento em São Paulo que lançou Flávio Bolsonaro como candidato à presidência pelo Partido Liberal, chamou Lula de "ladrão" e "condenado", além de proferir críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Como resposta, o governo brasileiro convocou seu embaixador em Buenos Aires para consultas em 26 de julho e, em 4 de agosto, rebaixou as relações diplomáticas ao nível de encarregado de negócios, um dos patamares mais baixos na diplomacia internacional. Também solicitou o retorno do embaixador argentino em Brasília, que ainda não reassumiu suas funções.
No mesmo dia em que a viagem foi anunciada, a Câmara dos Deputados argentina discutiu uma moção de repúdio aos insultos de Milei e reafirmou o caráter estratégico da relação com o Brasil. O texto também propunha a convocação do chanceler Pablo Quirno ao Congresso. A iniciativa teve 128 votos favoráveis, 108 contrários e 9 abstenções, mas não atingiu o quórum necessário para ser incluída na pauta da sessão.
O bloco governista La Libertad Avanza (LLA) foi convidado a integrar a delegação, mas nenhum de seus membros aceitou participar da missão.
Segundo Massot, o ministro Pablo Quirno foi informado previamente sobre a viagem, mas não se pronunciou oficialmente. A missão ocorre a pouco mais de um mês das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para 4 de outubro, quando Lula enfrentará Flávio Bolsonaro.
Normalização urgente
"A Argentina é a maior prejudicada neste contexto, pois o Brasil é seu principal parceiro comercial e destino da maioria das exportações argentinas. Precisamos do Brasil mais do que eles precisam de nós. Esta missão busca recompor os laços com urgência", afirmou o analista internacional Héctor Bernardo à Sputnik.
Bernardo destacou que o desequilíbrio comercial entre os países vai além de disputas ideológicas.
"Esta viagem dos parlamentares não trata apenas de uma questão partidária. Trata-se de representar a própria indústria argentina e os trabalhadores empregados nesses setores — fonte de emprego e renda para essas famílias."
O analista também ressaltou a importância do Mercosul para a relação bilateral.
"Além disso, eles são nossos parceiros regionais. Precisamos recompor essa relação — atualmente rebaixada ao nível de encarregado de negócios porque, após os insultos, o Brasil decidiu chamar seu embaixador de volta e solicitar o retorno do embaixador argentino a Buenos Aires."
O cientista político Santiago Giorgetta avaliou que o impacto da viagem é mais político do que imediato.
"Ela tem mais impacto na construção de alianças políticas regionais — visando um futuro em que governos de orientação política diferente aqui na Argentina possam buscar uma relação com o Brasil distinta daquela que o atual presidente mantém."
Para Giorgetta, a iniciativa evidencia a existência de dois canais diplomáticos paralelos e tensos. "O que isso demonstra — ou pretende demonstrar — é uma desconexão entre o presidente e o Congresso, e uma fragilidade do Poder Executivo no que diz respeito às relações bilaterais. Não há como isso ser produtivo", afirmou.
Um ponto de ruptura?
Bernardo classificou o momento como inédito nas relações entre Argentina e Brasil.
"Estamos diante da situação diplomática mais complexa da história das relações entre Argentina e Brasil. Ultrapassou-se uma linha muito tênue e complexa. Isso coloca toda a situação em um estado no qual, a menos que os ministérios das Relações Exteriores a resolvam, será muito difícil avançar."
Sobre os possíveis efeitos práticos da missão, Bernardo foi cauteloso:
"Não creio que essa medida ou essa viagem levará o Brasil a decidir trazer o embaixador de volta. Veremos — o Brasil pode mudar de postura —, mas, à primeira vista, não parece que essa viagem vá alterá-la."
Giorgetta foi ainda mais direto: "Para Milei, Lula não é o presidente do principal parceiro comercial do país, mas sim um inimigo ideológico que será contraposto a um aliado ideológico e geopolítico como Bolsonaro", enfatizou.
"Hoje, o presidente prioriza o alinhamento com os Estados Unidos e precisa de um inimigo ideológico — entre aspas —, e encontrou esse inimigo no presidente do Brasil, ainda que a um custo muito alto para a Argentina."
Por Sputnik Brasil
