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População de baleias-jubarte cresce mais de 20 vezes e recoloca Alagoas no mapa da espécie

Águas mornas do litoral alagoano são utilizadas como área de reprodução e passagem dos animais; pesquisador da Ufal aponta potencial para o turismo de observação

Por Redação 03/11/2026 09h09
População de baleias-jubarte cresce mais de 20 vezes e recoloca Alagoas no mapa da espécie
População de baleias-jubarte cresce mais de 20 vezes e recoloca Alagoas no mapa da espécie - Foto: Cláudio Sampaio/UFAL Penedo

A população de baleias-jubarte no Brasil passou de aproximadamente 1,5 mil indivíduos, no início da década de 1990, para mais de 35 mil atualmente. O crescimento, superior a 20 vezes, é resultado da recuperação da espécie após a proibição da caça no país, em 1987, e de ações contínuas de conservação.

Com o aumento dos animais em águas brasileiras, as jubartes voltaram a ocupar antigas rotas migratórias pelo litoral. Em Alagoas, as águas quentes e rasas funcionam como área de reprodução e nascimento de filhotes, além de corredor para os animais que seguem em direção ao Norte do país.

A importância do estado para a espécie foi destacada pelo professor e biólogo Cláudio Sampaio, conhecido como Buia, do Laboratório de Ictiologia e Conservação (LIC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), no Campus Penedo. Em entrevista ao Alagoas Notícia Boa, o pesquisador explicou que as condições naturais da costa alagoana favorecem a presença das baleias.

“O litoral alagoano foi historicamente uma área importante para as jubartes. Nossas águas são rasas, quentes e têm poucos predadores naturais, como orcas e grandes tubarões. Elas servem tanto de local de reprodução, cópula, gestação e nascimentos, quanto como corredor para as que migram aos estados mais ao norte. Costumo dizer que todos os filhotes recém-nascidos que registramos aqui são alagoanos”, afirmou.

Avistamentos e pesquisas no litoral


As baleias-jubarte percorrem quase 5 mil quilômetros desde as águas geladas da Antártica até a costa brasileira. Em Alagoas, a temporada de ocorrência vai de julho a outubro, com maior concentração de avistamentos entre agosto e setembro, quando os animais se reproduzem e as fêmeas amamentam os filhotes.

A presença das baleias já é percebida por moradores e pescadores em diferentes pontos do estado. Segundo Buia, há registros de animais saltando próximo à Praia do Francês, enquanto pescadores da região do Pontal do Peba relatam encontros frequentes durante a navegação.

“Elas já foram vistas saltando bem em frente à Praia do Francês, acompanhadas por banhistas da areia. Nas proximidades do Pontal do Peba, pescadores relatam encontros frequentes: algumas são tímidas, enquanto outras saltam e chegam bem perto das embarcações”, contou.

A equipe da Ufal realiza expedições científicas pelo Litoral Sul, no trecho entre o Pontal do Peba e a foz do Rio São Francisco. Durante os cruzeiros, os pesquisadores fotografam as caudas das baleias, que possuem padrões únicos e permitem identificar cada indivíduo, além de gravar os cantos emitidos pelos machos.

Em 2023, o laboratório registrou 20 jubartes, incluindo seis filhotes, em apenas quatro horas e meia de navegação, um recorde para a equipe. Além dessa espécie, o litoral alagoano também recebe a visita de baleias-minke, baleias-fin, cachalotes e baleias-bicudas.

Turismo de observação como alternativa de renda


A recuperação das jubartes também abre oportunidades econômicas. Em Caravelas, na Bahia, o turismo de observação de baleias transformou a dinâmica local, movimentando a economia durante o mês de agosto e gerando trabalho para barqueiros e condutores. A atividade se tornou uma alternativa à pesca tradicional.

Um estudo internacional estimou em mais de US$ 82 bilhões o valor agregado dos serviços ecológicos e das atividades de ecoturismo associados às baleias no Brasil.

Para Cláudio Sampaio, Alagoas reúne condições para desenvolver uma atividade semelhante, especialmente durante o inverno, período de menor movimento turístico no estado. O pesquisador cita o Pontal do Peba, onde pescadores já levam pequenos grupos de visitantes para observar os animais, além de destinos como Praia do Francês, Maceió e Maragogi.

“O turismo de observação tem grande potencial em Alagoas. No Pontal do Peba já existem pescadores levando pequenos grupos de visitantes. Pontos como Praia do Francês, Maceió e Maragogi também têm enorme vocação, especialmente por ser uma ótima alternativa de renda para o inverno”, avaliou.

O biólogo ressalta, porém, que a atividade precisa seguir regras de proteção ambiental e contar com profissionais capacitados. A aproximação inadequada, a perseguição ou o molestamento de baleias, golfinhos e peixes-bois são proibidos por lei. As embarcações devem manter distância mínima de 100 metros dos animais e não podem cercá-los.

Como agir em caso de encalhe


O aumento da presença de baleias no litoral também exige atenção aos casos de encalhe, que podem envolver animais feridos ou mortos. Nesses episódios, a orientação é não tocar nem tentar movimentar o animal, já que ele pode transmitir doenças e oferecer riscos de acidentes devido ao tamanho e à força da cauda.

“Animais encalhados são importantes fontes de pesquisa, mas só pessoal capacitado deve mexer neles. Eles podem transmitir doenças ou causar acidentes graves por causa do peso e da força da cauda. Ao encontrar um animal na praia, a orientação é isolar a área e acionar os órgãos ambientais imediatamente”, orientou Buia.

Em Alagoas, quem encontrar uma baleia encalhada deve manter distância, evitar aglomerações no entorno e comunicar equipes especializadas, como o Instituto Biota de Conservação, a Ufal, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA-AL), o ICMBio ou o Ibama.