Nacional
Favela no Morumbi vira alvo de disputa imobiliária em São Paulo
Moradores do Jardim Panorama temem remoção após mudança de plano da gestão Ricardo Nunes
Localizada em uma das áreas mais valorizadas da capital paulista, a comunidade do Jardim Panorama, na Zona Oeste de São Paulo, enfrenta uma disputa crescente por espaço diante do avanço do mercado imobiliário de alto padrão.
Com cerca de 1.100 famílias e mais de seis décadas de existência, a favela surgiu nos anos 1950, antes mesmo da consolidação de bairros nobres como o Morumbi. Ao longo do tempo, o entorno se transformou com a chegada de empreendimentos de luxo, centros empresariais e grandes projetos urbanísticos.
A situação se agravou após a prefeitura, sob gestão de Ricardo Nunes, desistir de um plano apresentado em 2023 que previa a urbanização da área com mínima remoção de moradores. A proposta incluía a construção de habitações próximas, permitindo a permanência das famílias na região.
Agora, a principal alternativa passou a ser o programa habitacional “Pode Entrar”, que prevê a compra de imóveis no mercado para reassentar famílias — sem garantia de que as novas moradias estejam na mesma área.
Moradores temem que a mudança os obrigue a deixar a região. “Para eles, esse terreno é dinheiro. Para nós, é a nossa vida”, afirma a moradora Simone Cristina Sales, de 38 anos.

Atualmente, parte das famílias já vive sob impacto de remoções emergenciais em áreas consideradas de risco. Segundo a prefeitura, quase 300 famílias foram retiradas de um trecho conhecido como Área dos Eucaliptos, onde há risco de queda de árvores e deslizamentos.
Enquanto aguardam uma solução definitiva, muitos dependem de auxílio-aluguel de R$ 600 mensais, valor considerado insuficiente para permanecer na região.
“Se me tirarem daqui, eu vou para onde?”, questiona Simone. “Aqui consigo trabalhar, cuidar da minha filha e manter minha rotina.”
Especialistas apontam que o novo modelo pode ampliar desigualdades urbanas. A substituição de projetos de urbanização local pela compra de imóveis tende a deslocar famílias para regiões mais distantes, onde os preços são mais baixos.
A arquiteta e urbanista Cristina Wehba avalia que a mudança compromete a permanência das famílias. “A proposta atual não assegura que essas pessoas continuem na região. Isso muda completamente o impacto social da política habitacional”, afirma.
O Jardim Panorama está inserido na área da Operação Urbana Consorciada Faria Lima, mecanismo que impulsionou a valorização imobiliária local e prevê investimentos em habitação social. Ainda assim, moradores relatam pressão constante diante do interesse econômico sobre o território.
Sem um plano definitivo, o futuro da comunidade permanece incerto, enquanto cresce o receio de que famílias sejam deslocadas para bairros distantes, rompendo vínculos com trabalho, escola e redes de apoio.
Nota da Prefeitura de São Paulo:
"A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) informa que as áreas em discussão são objeto de ação judicial de usucapião coletivo, envolvendo questões fundiárias complexas e sem prazo de definição, mesmo sendo classificadas como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS).
Para uma alternativa mais ágil e eficaz para o atendimento às famílias, a Prefeitura abriu um chamamento público no âmbito do programa Pode Entrar, visando à aquisição de até 6 mil unidades de habitação de interesse social no perímetro da Operação Urbana Consorciada Faria Lima.
A iniciativa tem como objetivo atender famílias do Jardim Panorama, e a entrega de propostas por parte da iniciativa privada está prevista para o dia 24 de abril."

