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Quebra de Xangô: Maceió relembra episódio de perseguição às religiões afro-brasileiras ocorrido em 1912

Ataque a terreiros marcou a história da capital alagoana com violência, racismo religioso e apagamento cultural que ainda ecoam mais de um século depois

Por Redação com Secom Maceió 02/02/2026 19h07 - Atualizado em 02/02/2026 19h07
Quebra de Xangô: Maceió relembra episódio de perseguição às religiões afro-brasileiras ocorrido em 1912
Episódio conhecido como Quebra de Xangô representou uma tentativa brutal de eliminar a presença das religiões de matriz africana em Alagoas - Foto: Jonathan Lins/ Secom Maceió

O ano de 1912 ocupa um lugar sombrio na história de Maceió. Foi nesse período que a capital alagoana viveu um dos episódios mais graves de intolerância religiosa e violência racial do país, conhecido como Quebra de Xangô. A ação teve como objetivo sufocar e eliminar as religiões de matriz africana em Alagoas, por meio de ataques coordenados a terreiros, lideranças espirituais e símbolos sagrados.

Na madrugada de 2 de fevereiro, milícias privadas invadiram e destruíram dezenas de casas religiosas. Instrumentos rituais foram incendiados em locais públicos, atabaques quebrados e práticas religiosas reprimidas com violência. Mães e pais de santo foram obrigados a esconder sua crença para preservar a própria vida. O ataque extrapolou os danos materiais e atingiu profundamente a identidade, a memória coletiva e a ancestralidade do povo negro.

Considerado um dos capítulos mais traumáticos da história maceioense, o Quebra de Xangô provocou perdas irreparáveis à cultura afro-brasileira em Alagoas. Cantos tradicionais foram interrompidos, fundamentos deixaram de ser repassados e saberes ancestrais se perderam com o fechamento forçado de terreiros. O que antes era expressão de fé e comunidade foi substituído pelo medo e pelo silêncio imposto.

Para o babalorixá Célio Rodrigues, os danos causados ultrapassam qualquer mensuração histórica. “Quando os tambores foram calados, não foi apenas o som que se perdeu. Houve um rompimento com a memória, com a cultura e com a identidade de um povo. Cada objeto destruído representava uma ligação direta com os ancestrais”, afirma.

Segundo ele, a repressão obrigou o povo de santo a se recolher. “Muitos terreiros fecharam, outros passaram a cultuar quase em segredo. Isso gerou uma ruptura profunda. Ainda assim, o axé resistiu e encontrou formas de continuar, mesmo ferido”, relembra.

Mais de cem anos depois, o Quebra de Xangô permanece como símbolo de alerta e resistência. “Eles não conseguiram destruir nossa fé, mas deixaram marcas que precisam ser reconhecidas. Hoje, rezar em voz alta é um ato político. Cada toque de tambor reafirma que sobrevivemos e que nossa fé não precisa mais se esconder”, destaca Pai Célio.

Xangô Rezado Alto resgata memória e afirma liberdade religiosa

Como forma de manter viva essa história e transformar dor em resistência, a Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC) promove anualmente o Xangô Rezado Alto. O evento relembra a tentativa de apagamento das religiões afro-brasileiras e celebra a retomada pública da fé que foi silenciada em 1912. Se antes os tambores foram forçados ao silêncio, hoje eles ecoam como expressão de identidade, memória e liberdade religiosa.

A iniciativa é construída em diálogo direto com os terreiros de Maceió, a partir da escuta das lideranças religiosas. Após reuniões com representantes do povo de santo, ficou definida a realização do Xangô Rezado Alto no dia 21 de março, reforçando o compromisso coletivo com o respeito, a reparação histórica e a valorização das tradições afro-brasileiras.

O presidente da FMAC, Myriel Neto, ressalta a importância simbólica e social da ação. “O Xangô Rezado Alto vai além de um evento cultural. É um gesto de reconhecimento, de escuta e de respeito. Para construir uma cidade mais justa, é preciso lembrar do passado para não repetir os erros e valorizar quem sempre resistiu”, afirma.