Internacional
Violência cresce em protestos estudantis e deixa jovens feridos na França
Mobilização contra as condições da educação reúne centenas de milhares de pessoas
A onda de protestos estudantis que se espalha pela França ganhou novos episódios de violência nesta terça-feira (6), com confrontos entre manifestantes e policiais em diferentes cidades. A mobilização, que reivindica melhores condições para a educação, já reúne centenas de milhares de pessoas e deixou adolescentes gravemente feridos durante as intervenções das forças de segurança.
Em Lens, no norte do país, um adolescente de 15 anos teve a mão arrancada após a explosão de uma granada durante os confrontos. As circunstâncias do incidente ainda são investigadas. O procurador de Béthune informou que não era possível determinar, naquele momento, se o jovem havia recolhido o artefato ou se a granada havia caído sobre ele.
Outro adolescente, de 14 anos, ficou gravemente ferido em Saint-Ouen-l'Aumône, depois de ser atingido no rosto por um disparo de lançador de granada lacrimogênea nas proximidades de uma escola profissionalizante. Segundo informações divulgadas pela imprensa francesa, o jovem sofreu graves lesões na mandíbula. A família pretende apresentar uma denúncia, enquanto uma investigação da Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN) já foi aberta.
Os protestos começaram em setembro e se espalharam por diversas regiões do país. Estudantes reclamam de salas superlotadas, falta de professores, infraestrutura precária e jornadas consideradas excessivas. Nesta terça-feira, mais de 250 mil pessoas participaram das manifestações em todo o território francês, segundo estimativas divulgadas pela imprensa internacional.
O governo respondeu às mobilizações com o reforço da presença policial. Mais de 5 mil pessoas foram detidas desde o início da onda de protestos, a maioria menores de idade, segundo dados divulgados antes da manifestação nacional desta terça-feira.
Entidades denunciam uso excessivo da força
A Comissão Consultiva Nacional de Direitos Humanos da França (CNCDH) manifestou preocupação com a atuação das forças de segurança e pediu ao governo que amplie o diálogo com os estudantes.
A entidade destacou que a proteção de pessoas, bens e profissionais da educação diante de atos violentos é responsabilidade do Estado, mas defendeu que a resposta às mobilizações respeite as liberdades fundamentais e não trate todo o movimento estudantil como responsável pelos atos violentos cometidos durante os protestos.
Na mesma linha, a Anistia Internacional pediu a redução das tensões e criticou o que classificou como uso desproporcional da força policial.
"As autoridades francesas devem cumprir suas obrigações em relação aos direitos humanos e interromper a resposta policial desproporcional observada nos últimos dias aos protestos estudantis", alertou a Anistia Internacional antes dos protestos desta terça-feira.
"Crianças e jovens que reivindicam pacificamente seu direito à educação devem ser protegidos, em vez de serem espancados, atingidos por gás lacrimogêneo ou detidos arbitrariamente", afirmou Anne Savinel-Barras, presidente da Anistia Internacional França.
A organização também pediu que qualquer intervenção policial seja legal, necessária e proporcional, além de defender medidas de desescalada.
Governo defende atuação policial
Diante do agravamento da situação, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, condenou a violência registrada nas escolas durante uma sessão de perguntas e respostas na Assembleia Nacional nesta terça-feira (6).
Lecornu informou que 215 alunos e 85 funcionários das escolas ficaram feridos durante a onda de violência e classificou o episódio como "o maior número de vítimas em décadas no sistema nacional de educação em termos de funcionários públicos feridos".
O primeiro-ministro também defendeu a atuação policial e rejeitou o que chamou de "mentiras" sobre as forças de segurança, em referência às acusações de uso deliberado de força excessiva e racismo por parte dos agentes.
O governo afirma ainda que o movimento foi infiltrado por pessoas de fora e que parte das manifestações acabou se transformando em episódios de violência urbana. Ao mesmo tempo, o ministro da Educação, Edouard Geffray, reconheceu a necessidade de mudanças nas escolas.
"De forma simples e muito clara: hoje, precisamos fazer mais e melhor", afirmou Geffray.
O presidente Emmanuel Macron também convocou ministros para discutir a resposta do governo diante da escalada dos protestos.
