Internacional
Crianças em Gaza são proibidas de soltar pipas após ameaça de Israel
Brinquedos estão entre os poucos passatempos disponíveis para crianças no território devastado pela guerra
Uma brincadeira tradicional da infância passou a ser motivo de preocupação para famílias palestinas na Faixa de Gaza. Crianças foram orientadas a não soltar pipas depois que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ameaçou eliminar responsáveis pelo lançamento desses objetos em direção ao território israelense e determinou que áreas usadas para isso poderiam ser evacuadas.
A orientação foi divulgada pelos chamados comitês populares, formados por representantes de organizações não governamentais e instituições de caridade que administram campos de deslocados em Gaza. O alerta ocorre em meio a novas ameaças de Israel e à permanência de uma situação de instabilidade mesmo após o cessar-fogo.
Para muitas crianças palestinas, empinar pipas se tornou uma das poucas formas de lazer disponíveis em um território profundamente afetado pela guerra entre Israel e Hamas. A destruição de áreas residenciais e a falta de espaços seguros reduziram drasticamente as possibilidades de recreação.
Israel afirma que as pipas podem representar uma ameaça à segurança e relaciona o uso desses objetos a episódios registrados em 2018, quando habitantes de Gaza lançaram pipas e balões incendiários em direção a Israel. Na ocasião, os objetos provocaram incêndios em centenas de hectares de áreas agrícolas e terrenos abertos. Os lançamentos foram apresentados pelos participantes como uma forma de protesto contra o bloqueio israelense ao enclave controlado pelo Hamas.
Segundo uma autoridade israelense ouvida pela Reuters, Israel também levou a questão ao Conselho de Paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, órgão responsável por supervisionar a implementação do acordo de cessar-fogo de 2025 em Gaza.
“Toda atividade militante em Gaza deve cessar, incluindo o lançamento de pipas. Transmitimos essa mensagem diretamente por meio do mecanismo estabelecido”, disse à Reuters uma autoridade do Conselho de Paz.
O anúncio foi coordenado ainda com autoridades do Hamas, segundo uma fonte ligada ao grupo.
Em comunicado distribuído às famílias palestinas, os comitês afirmaram que a intenção seria evitar riscos às crianças diante da possibilidade de uma escalada militar.
“Estamos trabalhando incansavelmente no terreno e fazendo todo o possível para acabar com essa prática — não para restringir a infância de nossos filhos, que já foram privados dos direitos mais básicos de brincar e viver em segurança, mas para proteger suas vidas inocentes”, dizia o comunicado.
No último mês diversas pipas, desta vez sem materiais incendiários, segundo os relatos, foram vistas atravessando a fronteira entre Gaza e Israel. A movimentação causou preocupação entre moradores de comunidades israelenses próximas à fronteira.
Essas localidades foram algumas das áreas atingidas durante a ofensiva liderada pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, episódio que desencadeou a guerra em Gaza.
No domingo (23), Netanyahu elevou o tom das ameaças. O primeiro-ministro israelense afirmou que, caso os lançamentos não fossem interrompidos imediatamente, os responsáveis por enviar pipas, balões ou drones em direção a Israel seriam considerados alvos de eliminação. Ele também disse que poderia ordenar a evacuação das regiões de onde esses objetos fossem lançados.
Uma autoridade sênior da Defesa de Israel afirmou que o Hamas estaria tentando provocar o país ao incentivar moradores de Gaza a empinar pipas através da fronteira.
O Hamas, por sua vez, contestou a acusação. Um representante do grupo disse à Reuters que a organização havia reclamado aos mediadores do cessar-fogo que “Israel estava criando pretextos falsos para continuar a guerra contra Gaza”.
A preocupação chegou diretamente às famílias. Umm Mohammed, moradora da Cidade de Gaza, contou à Reuters, por meio de um aplicativo de mensagens, que decidiu impedir o filho de continuar com a brincadeira.
“Todo verão, meu filho Ahmed, de 10 anos, e as crianças da rua soltam essas pipas para se divertir, mas não vou mais permitir que ele faça isso”, afirmou.
O relato evidencia como a tensão militar passou a alcançar até atividades cotidianas das crianças, que já convivem com os efeitos prolongados do conflito e da destruição no território.
Ataques continuam mesmo após cessar-fogo
O cessar-fogo firmado em outubro de 2025 interrompeu os combates de maior escala, mas não encerrou completamente os ataques na região.
Na terça-feira, um ataque aéreo israelense matou um palestino na área de Mawasi, em Khan Younis, no sul de Gaza. As Forças Armadas de Israel disseram ter como alvo um militante, mas não divulgaram outros detalhes sobre a operação.
Mais tarde, outro ataque aéreo matou pelo menos três pessoas nas proximidades de uma escola que abrigava famílias deslocadas em Jabalia, no norte do território, segundo equipes médicas. As forças israelenses não haviam comentado imediatamente o episódio.
De acordo com autoridades de saúde de Gaza, mais de 1.280 palestinos morreram no território desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em outubro do ano passado. As Forças Armadas de Israel, por outro lado, informaram a morte de quatro soldados israelenses no mesmo período.
