Internacional
Crise política e orçamento militar desafiam apoio britânico à Ucrânial
Esse ambiente de incertezas coloca em xeque o suporte prático do Reino Unido à Ucrânia, para além do discurso político
A renúncia do secretário de Defesa, John Healey, com críticas ao orçamento limitado da pasta, e a queda do premiê Keir Starmer, substituído por Andy Burnham, evidenciam a crise política no Reino Unido. O cenário reacende o debate sobre a real capacidade bélica do país para sustentar o apoio ao governo ucraniano e cumprir compromissos com aliados.
Esse ambiente de incertezas coloca em xeque o suporte prático do Reino Unido à Ucrânia, para além do discurso político, conforme avalia Guilherme Carvalho, bacharel em Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo de Avaliação de Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil.
"A principal questão atualmente é que, aparentemente, o governo britânico não tem condições de enviar uma quantidade específica de armamentos para a Ucrânia. Até quando Londres conseguirá se comprometer o suficiente para sustentar essa causa?", questiona o analista.
Carvalho destaca ainda que o cidadão comum britânico, diante do alto custo de vida e de desafios internos, tende a rejeitar o envolvimento do governo em conflitos distantes, como o ucraniano.
"É difícil convencer um londrino de que o aluguel precisa subir para enviar mísseis à Ucrânia. Isso é complicado para o europeu médio. Quando não se está diretamente envolvido em um conflito, é difícil inserir a população nesse contexto", comenta.
Objetivo britânico não corresponde à realidade
O pesquisador, autor do artigo "A instabilidade política britânica e os desafios ao planejamento estratégico da Defesa" no Boletim Geocorrente do NAC/EGN, ressalta que a instabilidade política afeta diretamente o planejamento e o desenvolvimento militar do Reino Unido.
"O Reino Unido tem passado por mudanças políticas em ritmo acelerado. Com cada novo governo, algumas prioridades são deixadas de lado. Essa alternância constante afeta o planejamento estratégico de Defesa", destaca.
Outro ponto levantado por Carvalho é que a crise fiscal do Reino Unido extrapolou as esferas política e militar, criando uma situação em que as decisões governamentais se distanciam da realidade e deixam a posição britânica perante os aliados em xeque.
"Com as mudanças frequentes de governo, não se sabe o que esperar da próxima administração. Não se trata apenas de uma questão política, mas também fiscal. Essa instabilidade gera dúvidas sobre até quando o Reino Unido conseguirá manter seu apoio", observa.
Desenvolvimento militar britânico segue incerto
O analista aponta ainda uma contradição no setor de Defesa britânico. Embora o país participe de projetos de longo prazo, como a AUKUS com Austrália e Estados Unidos, faltam clareza e planejamento para ações de curto e médio prazo.
"Vemos projetos em desenvolvimento, como a AUKUS, mas, ao mesmo tempo, surgem dúvidas: como está a força de submarinos do Reino Unido? Qual o cronograma de manutenção dos submarinos existentes? Nos últimos dez anos, tem faltado planejamento militar", conclui.
Tensões internacionais e conflitos recentes tornam a corrida armamentista prioridade para países que buscam garantir sua soberania. No entanto, crises políticas internas, como a enfrentada pelo Reino Unido, podem colocar essa segurança em risco.
Por Sputnik Brasil
