Geral

Alagoano vencedor do Jabuti analisa desigualdade e mobilidade social

Pesquisador alagoano afirma que esforço individual não é suficiente para superar desigualdades estruturais

Por Redação 16/08/2026 17h05
Alagoano vencedor do Jabuti analisa desigualdade e mobilidade social
Fillipi Nascimento é coautor de livro vencedor do Jabuti Acadêmico na categoria Economia - Foto: DIVULGAÇÃO/CBL

O sociólogo alagoano Fillipi Nascimento, vencedor do Jabuti Acadêmico na categoria Economia, transformou a própria trajetória e histórias de vida em ponto de partida para discutir desigualdade, mobilidade social e os limites da meritocracia no Brasil. Pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, ele defende políticas públicas como caminho para ampliar as oportunidades para as camadas populares.

A trajetória de Fillipi Nascimento começou em uma casa estreita na Jatiúca, em Maceió, onde ele cresceu com a família. Aos 33 anos, o alagoano acumula formação em Ciências Sociais pela Ufal, mestrado na mesma área e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco.

Atualmente, é pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, em São Paulo, e cursa o segundo pós-doutorado na Fundação Oswaldo Cruz.

Foi a partir da experiência acadêmica e da convivência profissional com o economista Michael França que surgiu a parceria para a produção de A Loteria do Nascimento, livro que recebeu o Jabuti Acadêmico na categoria Economia.

A obra aborda as desigualdades sociais por meio de histórias, em vez de se limitar a conceitos econômicos e dados estatísticos.

“A história gera adesão. E essa adesão facilita o entendimento dos conceitos e das teorias.”

Segundo Fillipi, a estratégia permitiu que leitores reconhecessem situações semelhantes às próprias experiências e compreendessem conceitos relacionados à desigualdade social.

Livro aborda diferentes pontos de partida


Um dos exemplos utilizados pelos autores é a história dos irmãos gêmeos Expedito e Expeditiano. Embora tenham a mesma origem familiar e formação acadêmica, os dois seguem caminhos diferentes ao longo da vida.

Um deles vai para o mercado financeiro, acumula patrimônio e amplia sua rede de contatos. O outro se muda para o interior da Bahia e termina a vida com uma condição financeira menor, mas cercado pela família.

Para Fillipi, a história ajuda a diferenciar desigualdades decorrentes das escolhas individuais daquelas relacionadas às condições de origem.

O problema, segundo ele, aparece também na geração seguinte: enquanto os filhos do irmão rico recebem patrimônio, influência e contatos, as filhas do outro não têm acesso aos mesmos recursos.

O pesquisador relaciona o exemplo ao conceito de desigualdade de oportunidades e cita dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo os quais seriam necessárias nove gerações para que uma pessoa nascida em uma família de baixa renda no Brasil alcançasse a classe média.

Trajetória acadêmica também foi marcada por dificuldades


A própria história de Fillipi é utilizada por ele para demonstrar que esforço e dedicação não são os únicos fatores responsáveis pela trajetória de uma pessoa.

Durante uma mobilidade acadêmica entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte, enquanto trabalhava e estudava simultaneamente, o pesquisador chegou a desmaiar em sala de aula. Após a realização de exames, a causa física foi descartada e o episódio foi associado a estresse agudo.

Para o sociólogo, condições financeiras diferentes também determinam a maneira como pessoas de classes sociais distintas conseguem enfrentar situações de sofrimento e continuar suas trajetórias acadêmicas e profissionais.

“O filho do rico e a filha do porteiro lidam com esse tipo de sofrimento de formas totalmente diferentes, porque os recursos à disposição são diferentes.”

Sociólogo questiona discurso da meritocracia


Apesar de reconhecer o próprio esforço para chegar à carreira acadêmica e conquistar o prêmio nacional, Fillipi rejeita a interpretação de sua trajetória como uma prova de que a meritocracia funciona de maneira igual para todos.

“Não quero que essa vitória seja lida pelo discurso da meritocracia.”

O pesquisador afirma que outras pessoas podem ter enfrentado dificuldades semelhantes ou até maiores sem conseguir as mesmas oportunidades.

Para ele, a dedicação individual é importante, mas não elimina diferenças relacionadas à origem familiar, renda, acesso à educação, contatos profissionais e condições de permanência nos estudos.

“Me dediquei muito, estudei muito, foi difícil, sim, consegui. Mas a luta continua, porque tem muita gente que não conseguiu nada disso.”

Políticas públicas são apontadas como caminho


Na avaliação do sociólogo, a redução das desigualdades depende de decisões políticas e de políticas públicas capazes de ampliar oportunidades.

Entre as medidas citadas por Fillipi estão a ampliação do acesso ao ensino superior, a criação de condições para que estudantes de camadas populares avancem no mercado de trabalho e discussões sobre tributação de heranças e grandes fortunas.

Ele também defende maior participação popular no debate sobre mobilidade social.

“A solução vem com disposição política. E disposição política só vem com maior engajamento popular em torno dessas questões.”

Dois alagoanos receberam o Jabuti Acadêmico


Além de Fillipi Nascimento, Alagoas teve outro vencedor na edição deste ano do Jabuti Acadêmico.

O professor Fábio Lins, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e do Cesmac, também recebeu o prêmio. A cerimônia ocorreu na terça-feira (11), no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Criado em 2023 como uma vertente do Prêmio Jabuti, o Jabuti Acadêmico reconhece trabalhos científicos, técnicos e acadêmicos produzidos no Brasil.