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Como os algoritmos e plataformas moldam seu gosto musical: pesquisador analisa

Por Sputnik Brasil 31/07/2026 10h10
Como os algoritmos e plataformas moldam seu gosto musical: pesquisador analisa
Foto: © AP Photo / John Raoux

A promessa de democratização do mercado fonográfico com a digitalização em massa revelou-se ilusória. Ao centralizarem um acervo sonoro global, as plataformas de streaming substituem as escolhas e a identidade dos indivíduos por critérios algorítmicos orientados exclusivamente pelo lucro, influenciando diretamente o mercado musical.

Nesse contexto, o jornalista Luiz Cesar Pimentel, autor do livro "A grande trapaça digital: como as big techs destruíram a música, enganaram o público e sequestraram a nossa alma sonora", detalha em entrevista à Sputnik Brasil como funciona o mecanismo da plataformização musical.

"A música sempre permitiu que as pessoas se posicionassem por critérios internos de julgamento, buscando curadoria e informação. Mas as redes sociais mudaram isso. Elas conduzem o usuário para o que já está validado, eliminando o critério interno de julgamento e guiando-o, por meio do algoritmo, a gostar do que a plataforma deseja, por interesses financeiros", afirma.

O pesquisador destaca ainda que existem exceções: alguns artistas optam por não disponibilizar suas obras nos streamings devido à baixa remuneração imposta pelas empresas administradoras dos aplicativos.

"Muita coisa que eu ouvia há 40 anos, por exemplo, não encontro nas plataformas porque alguns artistas simplesmente não colocam sua obra no catálogo devido à remuneração irrisória. O que pagam para os artistas é uma piada", comenta.

Consumo acelerado transforma a produção musical

Durante sua pesquisa, Pimentel constatou que usuários de plataformas de streaming ouvem uma música por apenas cinco segundos, em média, antes de acionar a função de pular (skip). Esse comportamento forçou os artistas a se adaptar ao novo formato de consumo.

"O sertanejo, que domina as paradas no Brasil, é um exemplo. Foram estabelecidos critérios sociológicos: as gerações mais novas, que já nasceram com a internet, buscam gratificação imediata. Se não recebem rapidamente o que querem, pulam a música. Isso gera uma desatenção total e obriga os compositores a pensar nos componentes sociais do consumidor atual", destaca.

Pimentel observa que as playlists, baseadas em temas populares nas redes sociais, induzem e retêm o usuário em nichos musicais muito semelhantes. Assim, trabalhos autorais que fogem desse padrão acabam relegados a segundo plano.

"No sertanejo, por exemplo, existem os writing camps — campos de escrita e composição baseados no que funciona comercialmente. O cantor inicia citando seu nome, chamando para a sofrência ou abordando temas como bares e garrafas na mesa. Criou-se uma fórmula quase matemática para induzir as pessoas sobre o que elas gostam ou não", analisa.

Serviço gratuito como estratégia das plataformas

Outro ponto abordado pelo especialista é o fenômeno conhecido como "enshittification": a degradação deliberada de serviços tecnológicos para forçar o usuário a assinar versões premium e acessar funções básicas, prática comum em streamings.

"No início, os serviços vinham em planos de celular sem consumir banda. Com o tempo, as empresas investiram para reter o público e criaram rotinas de audição e playlists favoritas. Depois, pioraram o serviço, incluíram anúncios e passaram a cobrar para ouvir sem interrupções. Essa prática é chamada de 'enshittification' dos serviços de tecnologia", conclui.

A cultura, além de expressão artística, movimenta uma complexa engrenagem industrial. Com a digitalização do entretenimento, especialmente na música, a entrada das big techs no controle dos acervos das grandes gravadoras, em vez de promover a democratização, frequentemente precariza o artista e restringe a autonomia do ouvinte na descoberta de novos trabalhos autorais.