Geral
PF vê indícios de atuação de outros bancos em fraude das Americanas
Investigação apura se instituições financeiras colaboraram para ocultar operações de risco sacado que mascaravam o endividamento da varejista.
A Polícia Federal identificou indícios de que executivos ligados ao Itaú, ao Santander e ao Bradesco possam ter colaborado para manter operações que ocultavam a real situação financeira das Americanas. A apuração integra a Operação Disclosure, que investiga a fraude contábil bilionária revelada pela varejista em 2023.
No centro da investigação está o chamado risco sacado, modalidade financeira em que uma instituição bancária antecipa o pagamento aos fornecedores de uma empresa e passa a ser sua credora.
Nesse tipo de operação, a dívida deixa de existir entre a companhia e o fornecedor e passa a ser com o banco. Por esse motivo, segundo a investigação, esses valores deveriam ser registrados como passivos financeiros nos balanços da empresa.
De acordo com a Polícia Federal, porém, as Americanas registravam essas obrigações como dívidas com fornecedores, reduzindo artificialmente seu nível de endividamento e transmitindo ao mercado uma imagem financeira mais favorável do que a realidade.
No fim de junho, com autorização da Justiça, a PF realizou mandados de busca e apreensão em endereços de executivos do Itaú e do Santander. Um executivo do Bradesco também foi alvo da operação.
Ao autorizar a segunda fase da Operação Disclosure, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro apontou haver indícios de que os bancos "atuaram possivelmente de forma coordenada para ocultar operações financeiras realizadas pela varejista".
Segundo as investigações, executivos das instituições teriam atuado "para que as manipulações ao mercado fossem viabilizadas" e "teriam sido indispensáveis para as fraudes ocorrerem e se perpetuarem ao longo do tempo".
A investigação também se concentra nas chamadas cartas de circularização, documentos enviados pelas instituições financeiras aos auditores independentes para confirmar saldos e operações mantidas com empresas.
Segundo a Polícia Federal, a omissão das operações de risco sacado nesses documentos impediria que as auditorias identificassem divergências entre as informações prestadas pelos bancos e os balanços divulgados pelas Americanas.
Ainda conforme a investigação, essa prática teria permitido que a varejista continuasse obtendo novos financiamentos e renovando operações de crédito, apesar do aumento contínuo do endividamento.
Para os investigadores, a manutenção dessas linhas de crédito também beneficiava os bancos, que ampliavam receitas com as operações e preservavam o relacionamento comercial com uma das maiores redes varejistas do país.
A linha investigativa sustenta que, sem a renovação constante das operações de risco sacado, a expansão da dívida da companhia poderia ter sido interrompida antes, reduzindo os prejuízos causados a acionistas, credores e instituições financeiras.
O Itaú Unibanco afirmou, em nota, que não é alvo da investigação e que vem colaborando com as autoridades desde 2023.
Segundo o banco, a documentação apresentada à Justiça demonstra que recusou pedidos da antiga administração das Americanas para alterar cartas de circularização e que atuou de forma independente durante todo o processo.
"Em relação à operação Disclosure, o Itaú Unibanco, embora não seja objeto da investigação, esclarece que colabora ativamente com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações sobre o caso Americanas. As investigações oficiais já demonstraram que a varejista foi palco de uma das maiores fraudes corporativas do País.
O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, comprovou a regularidade de sua conduta e da atuação de suas equipes por meio de farta documentação apresentada à Justiça. Os registros deixam claro que o Itaú recusou, de forma firme e independente, os pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços. Essas cartas seguiam modelos de mercado próprios da instituição, sendo documentos claramente distintos e sem nenhuma relação com os padrões de outros bancos.
Todos os documentos e comunicações que fundamentam essa lisura constam nos autos desde 2024. Eles provam o caráter regular das interações e a ausência de qualquer alinhamento, coordenação ou combinação com outras instituições financeiras para adulterar dados ou ocultar informações. Cada instituição atuou de forma isolada, e o Itaú rechaçou de pronto as investidas da varejista.
O Itaú reitera que sempre atuou com rigor ético e regulatório, apoiando e confiando no trabalho das autoridades para a elucidação definitiva das irregularidades praticadas pela antiga administração da varejista."
O Santander informou que "está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo as Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações".
A instituição acrescentou:
"A instituição reitera seu compromisso com a ética, a transparência e o estrito cumprimento da regulamentação em suas operações."
Já o Bradesco declarou apenas que:
"Acompanha o caso e está à disposição das autoridades."
Até o momento, a investigação segue em andamento e não há decisão judicial sobre eventual responsabilização dos executivos ou das instituições financeiras.

