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Ameba ‘comedora de cérebros’ preocupa cientistas após novos casos
Infecções por Naegleria fowleri aumentam em diferentes regiões do mundo; especialistas relacionam avanço a águas mais quentes e melhores diagnósticos
Uma infecção rara e altamente letal causada pela chamada “ameba comedora de cérebros” tem despertado preocupação entre pesquisadores após o surgimento de novos casos em regiões onde o organismo não era frequentemente identificado.
A Naegleria fowleri, encontrada principalmente em águas doces quentes, como lagos, rios, fontes naturais e piscinas sem tratamento adequado, pode entrar no corpo humano pelas narinas durante mergulhos ou brincadeiras na água. A partir daí, o microrganismo pode atingir o cérebro e provocar a meningoencefalite amebiana primária, uma infecção grave e de rápida evolução.
Um dos casos que chamou atenção foi o do americano Jordan Smelski, de 11 anos, que morreu após contrair a infecção durante uma viagem em família à Costa Rica. Segundo o pai, Steve Smelski, o menino nadou em uma fonte natural de água quente e, dias depois, começou a apresentar dores de cabeça, vômitos e alterações neurológicas.
“Sete dias e meio depois de nadar, ele se foi. Ele não tinha problemas até então. Sua saúde era perfeita”, relatou o pai.
De acordo com pesquisadores, a doença continua sendo considerada rara. Entre 1962 e 2023, foram registrados menos de 500 casos em todo o mundo, mas cerca de 97% das pessoas infectadas morreram. Nos últimos anos, porém, a presença da ameba passou a ser identificada em novos locais, incluindo países e regiões onde antes não havia registros frequentes.
Um dos fatores apontados pelos especialistas é o aumento da temperatura das águas provocado pelas mudanças climáticas. Com ambientes mais quentes, a Naegleria fowleri encontra melhores condições para se desenvolver e pode ampliar sua distribuição geográfica.
“Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa. Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas”, explicou o parasitologista molecular Anastasios Tsaousis, da Universidade de Kent, no Reino Unido.
Além do aquecimento global, cientistas avaliam que o aumento de diagnósticos também pode estar relacionado ao maior conhecimento médico e à evolução dos métodos de identificação da doença.

Casos em novas regiões chamam atenção
Nos últimos anos, infecções foram registradas em locais considerados incomuns para a presença da ameba. Países como Itália, Bélgica e Eslováquia tiveram casos confirmados, assim como áreas mais frias dos Estados Unidos.
No Brasil, uma criança de nove anos morreu em Rondônia após ser infectada pela Naegleria fowleri, segundo a Agência de Vigilância em Saúde do Estado.
Pesquisadores também investigam casos associados a ambientes diferentes dos tradicionais lagos e rios. Houve registros ligados a locais fechados de surfe e até equipamentos recreativos com água contaminada.
Sintomas podem ser confundidos com meningite
Os primeiros sinais da infecção podem se parecer com outras doenças, como a meningite. Entre os sintomas estão dor de cabeça intensa, febre, náuseas, vômitos, confusão mental, alucinações e convulsões.
Em muitos casos, o diagnóstico ocorre quando a doença já provocou um grave inchaço no cérebro, reduzindo as chances de recuperação.
Apesar da alta mortalidade histórica, pesquisadores identificaram avanços recentes no tratamento. Um surto registrado no estado de Kerala, na Índia, apresentou uma taxa de sobrevivência superior ao padrão observado anteriormente, possivelmente devido ao diagnóstico mais rápido e ao uso de protocolos médicos mais eficientes.
Como reduzir o risco de infecção
Especialistas afirmam que o risco de contaminação continua sendo muito baixo, mas algumas medidas podem ajudar na prevenção.
Ao nadar em águas doces e quentes, recomenda-se evitar que a água entre pelo nariz, utilizando, por exemplo, protetores nasais ou segurando o nariz durante mergulhos.
A ameba também pode estar associada ao uso de dispositivos de lavagem nasal com água contaminada. Por isso, órgãos de saúde recomendam utilizar apenas água destilada, esterilizada ou previamente fervida e resfriada nesses procedimentos.
“Na dúvida, simplesmente não coloque sua cabeça dentro da água”, orienta o especialista em ciências da água Ian Wright, da Universidade do Oeste de Sydney, na Austrália.

