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Dilma Rousseff: subversão, resistência e coragem

Perseguição, tortura e resiliência marcaram a história da mulher que décadas depois viria a se tornar a primeira presidenta do Brasil

Por Willyam Miranda 04/11/2026 09h09 - Atualizado em 04/11/2026 11h11
Dilma Rousseff: subversão, resistência e coragem
Presa e torturada durante a Ditadura Militar, Dilma resistiu aos anos sombrios do autoritarismo até chegar a presidência, em 2010. - Foto: Reprodução/ Internet

O período ditatorial no Brasil foi marcado por violações de direitos, repressão e forte censura. Enquanto, no meio artístico, nomes como Caetano, Chico e Gil desafiavam o autoritarismo e eram perseguidos, chegando a deixar o país, a oposição também se organizava dentro das universidades e dos partidos políticos. Com o AI-2, em 1965, os partidos existentes foram extintos, dando lugar ao sistema bipartidário, formado pelo MDB e pela Arena.

Enquanto o MDB representava a oposição legal ao regime, diversas organizações espalhadas pelo país decidiram combater a ditadura de outra maneira: por meio da luta armada. Essa escolha colocou alguns nomes na história do país, como Carlos Marighella, Carlos Lamarca e Dilma Rousseff.

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 14 de dezembro de 1947, Dilma Vana Rousseff é filha do imigrante búlgaro Pedro Rousseff (Petar Russev) e de Dilma Jane da Silva, professora. Cresceu em uma família com boas condições financeiras e teve acesso à educação desde cedo.

Sua adolescência coincidiu com o início da ditadura militar, em 1964. Aos 16 anos, Dilma começou sua trajetória política ao se aproximar da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop). Posteriormente, ingressou no Comando de Libertação Nacional (Colina), grupo que defendia a luta armada contra o regime.

Em 1969, precisou interromper o curso de Economia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para viver na clandestinidade, devido ao seu envolvimento na oposição ao governo. No mesmo ano, a Colina se uniu a outra organização, formando a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Com isso, Dilma passou a atuar em São Paulo, onde participou de atividades ligadas à organização.

OBAN e Prisão


A Operação Bandeirante (Oban) foi um órgão repressivo financiado por empresários e empresas, composto por militares e agentes de segurança em São Paulo, com o objetivo de perseguir e torturar pessoas envolvidas com organizações de oposição ao regime, especialmente grupos de luta armada.

Após a chegada de Dilma a São Paulo, a organização passou a monitorar seus passos. Em janeiro de 1970, ela foi presa por agentes durante uma operação na capital paulista.

Durante a prisão, Dilma foi submetida a sessões de tortura que envolviam choques elétricos, inclusive em partes íntimas, pau de arara, espancamentos e palmatória.

Quando era ministra-chefe da Casa Civil, em 2008, declarou que não havia fornecido informações importantes aos militares e que "mentir na tortura não é uma tarefa fácil". Também afirmou ter orgulho de nunca ter entregado seus companheiros.

Durante o período de detenção, Dilma passou por unidades prisionais em diferentes estados, incluindo Minas Gerais e Rio de Janeiro. No entanto, foi no Presídio Tiradentes, em São Paulo, que permaneceu durante boa parte do cárcere. Rousseff acabou condenada a seis anos e um mês de prisão, mas teve a pena reduzida e foi libertada no final de 1972.

Devido à violência sofrida durante as sessões de tortura, desenvolveu problemas na arcada dentária, além de alterações na tireoide.



Uma fotografia de seu julgamento tornou-se uma das imagens mais conhecidas daquele período sombrio da história brasileira. Na imagem, Dilma aparece de cabeça erguida diante dos militares que a julgavam, enquanto eles cobrem os rostos.

Soltura e Vida Pública


No ano seguinte à sua libertação, mudou-se para Porto Alegre, onde retomou os estudos em Economia, agora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e procurou se afastar das perseguições que havia sofrido até então.

Em 1975, conseguiu seu primeiro emprego remunerado na Fundação de Economia e Estatística (FEE), no Rio Grande do Sul. Dois anos depois, foi exonerada em meio à perseguição política. Seu nome estava na chamada "lista do general Frota", uma relação divulgada pela imprensa que reunia pessoas consideradas subversivas e supostamente infiltradas no serviço público. Nesse período, Dilma também concluiu sua formação em Economia.

No início dos anos 1980, com o avanço da abertura política, Dilma retornou à vida pública, participando de instituições e contribuindo para a organização do Partido Democrático Trabalhista (PDT), ao lado de Leonel Brizola.

Em 1986, devido à sua formação, foi convidada para assumir a Secretaria da Fazenda de Porto Alegre. Posteriormente, chegou à Secretaria Estadual de Energia, Minas e Comunicação do Rio Grande do Sul. Na função, ganhou notoriedade por sua atuação no setor energético gaúcho.

Em 2001, deixou o PDT e ingressou no Partido dos Trabalhadores (PT). Com a vitória de Lula nas eleições de 2002, foi convidada para assumir o Ministério de Minas e Energia. Durante sua gestão, participou da criação do programa Luz para Todos, iniciativa voltada à ampliação do acesso à energia elétrica para famílias de baixa renda e moradores de regiões remotas do país.

No segundo mandato de Lula, assumiu a Casa Civil, um dos ministérios mais importantes do governo federal.





Em 2010, foi escolhida para disputar a Presidência da República pelo PT, com a missão de suceder Lula e dar continuidade ao projeto político do partido. Com 56% dos votos válidos no segundo turno, Dilma derrotou José Serra, do PSDB, entrando para a história como a primeira mulher a assumir a Presidência da República.

Resistência, Força e Memória


Em 22 de maio de 2025, Dilma foi oficialmente anistiada pelo Estado brasileiro. Após julgamento da Comissão de Anistia, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o pedido foi aprovado, com o reconhecimento das perseguições e torturas sofridas durante a ditadura. O requerimento havia sido protocolado em 2002, mas a própria Dilma pediu que o processo fosse suspenso enquanto ocupava cargos públicos e, posteriormente, a Presidência da República. Após deixar o cargo, em 2016, solicitou a retomada da análise. O pedido acabou sendo negado em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, mas foi posteriormente aprovado.

A trajetória de Dilma Rousseff é mais uma entre tantas histórias marcantes de pessoas que enfrentaram o autoritarismo e lutaram pelo fim da ditadura. Essa história não deve ser esquecida, pois preservar a memória também é uma forma de evitar que os mesmos erros se repitam.

Além da anistia política, a Comissão de Anistia reconheceu que sua atuação em defesa da democracia, da igualdade, da educação e dos direitos sociais motivou a perseguição, o monitoramento por mais de 20 anos e os abusos cometidos pelo regime militar, cujas consequências ela carrega até hoje.

Em um cenário político marcado por violações, repressão e restrições, sua trajetória serve de exemplo na defesa dos direitos humanos, do respeito e da liberdade. Mais de 60 anos após o início da ditadura, esses valores continuam sendo objeto de disputas e reforçam a importância de preservar a memória de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil.