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Caetano Veloso: a subversão da arte em tempos de repressão

Entre a inovação do Tropicalismo, a censura e o exílio, o cantor transformou a música em instrumento de contestação durante a ditadura militar

Por Bruna Beatriz 03/11/2026 10h10 - Atualizado em 03/11/2026 11h11
Caetano Veloso: a subversão da arte em tempos de repressão
Foto de Caetano Veloso feita por militares após sua prisão durante a Ditadura Militar - Foto: Reprodução

Ao lado de Chico Buarque e outros artistas transgressores da MPB, Caetano Veloso foi um dos símbolos da resistência cultural e utilizou sua arte como forma de oposição à repressão do regime militar.

Sempre inquieto, Caetano desafiou convenções. Filho de Seu Zezinho e Dona Canô, é o quinto de sete filhos. Leonino e irmão de Maria Bethânia, nasceu em 7 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia.

Na juventude, Caetano saiu de Santo Amaro e se mudou para Salvador, em 1960, para estudar Filosofia. Foi nessa época que encontrou um ambiente de efervescência cultural e conheceu grandes parceiros, como Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé.

Em 1965, foi para o Rio de Janeiro acompanhar a irmã, Maria Bethânia, e lá se destacou como compositor. Em 1967, lançou seu primeiro álbum de estúdio, Domingo, em parceria com Gal Costa.

Caetano Veloso e a Ditadura Militar

A arte de Caetano sempre foi marcada pela contestação dos sistemas que oprimiam os artistas e suas criações. Nesse contexto, o golpe militar de 1964 interferiu não apenas na vida dos artistas, mas também em seus processos criativos, que passaram a conviver com os limites impostos pela fiscalização dos censores.

O Ato Institucional nº 5 (AI-5) foi assinado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do marechal Artur da Costa e Silva, em meio à ditadura militar no Brasil. O documento ampliou os poderes do regime, permitindo medidas como o fechamento do Congresso, a suspensão de direitos políticos e a intensificação da repressão.

O período de vigência do AI-5 ficou conhecido como Anos de Chumbo. Havia um controle rigoroso do governo sobre as manifestações culturais, por meio da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), responsável por avaliar obras artísticas antes de sua divulgação.

A censura atingia músicas, peças teatrais, filmes e outras produções culturais. Os artistas precisavam submeter suas criações à avaliação dos órgãos responsáveis, que poderiam liberá-las, exigir cortes ou proibir sua divulgação.

O Tropicalismo

Liderado por Caetano e Gil, o Tropicalismo surgiu em meio à ditadura militar, no final da década de 1960. A proposta era renovar a MPB, misturando ritmos nacionais e estrangeiros, especialmente o rock. Os tropicalistas queriam romper padrões estéticos e culturais, utilizando a ironia e a provocação como formas de expressão.

Além de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o movimento reuniu nomes como Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto e Capinan. Nas artes visuais, também recebeu influência de Hélio Oiticica, cuja obra Tropicália, apresentada em 1967, inspirou o nome do movimento.

Caetano se tornou um dos principais representantes do Tropicalismo e defendeu que a música brasileira incorporasse outras referências culturais. Em 1967, apresentou "Alegria, Alegria", acompanhada por guitarras elétricas no Festival da Record. A apresentação provocou a insatisfação de setores que defendiam uma música brasileira sem influências estrangeiras. Na ocasião, Caetano enfrentou vaias por parte do público, mas a reação mudou pouco depois, quando público passou a demonstrar aprovação à música.

A Tropicália marcou um período de contestação aos padrões culturais
preestabelecidos, indo além da música e alcançando outras manifestações artísticas.

O álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circensis, lançado em 1968, reuniu artistas do movimento e se tornou um dos principais registros daquela experiência musical e cultural.

As músicas marcadas durante o regime

A produção musical de Caetano também foi alvo da vigilância do regime militar. Suas composições eram analisadas pelos órgãos de repressão, que identificavam possíveis ameaças à ordem estabelecida em letras, apresentações e manifestações artísticas.

Uma das músicas que aparecem nos documentos de monitoramento do Exército é "Divino Maravilhoso", fruto de uma parceria com Gilberto Gil. A composição foi interpretada por Gal Costa no 4º Festival de Música Popular Brasileira da Record, em 1968, e ficou em terceiro lugar na competição.

A música ganhou destaque pela interpretação de Gal, especialmente pelo trecho que defendia a necessidade de estar atento e forte. Enquanto Caetano e Gil estavam presos e, posteriormente, no exílio, Gal continuou apresentando a canção e assumiu parte da postura contestadora dos parceiros.

Outra composição que enfrentou problemas com a censura foi "A Voz do Morto". A música foi censurada, e o disco que a continha chegou a ser recolhido das lojas. O episódio demonstra como a fiscalização do regime também atingia trabalhos que não estavam necessariamente ligados a manifestações políticas explícitas.

"É Proibido Proibir" também marcou a relação de Caetano com o período. A música foi apresentada em 1968, no 3º Festival Internacional da Canção. Acompanhado pelos integrantes de Os Mutantes, Caetano enfrentou vaias de parte do público, que rejeitava a presença das guitarras elétricas na música brasileira.

O compositor respondeu às manifestações com um discurso em defesa da liberdade artística. A composição foi inspirada em uma frase escrita nos muros de Paris durante as manifestações de Maio de 1968: "É proibido proibir". A apresentação se tornou um dos episódios mais conhecidos da trajetória tropicalista.

"Podres Poderes", música lançada por Caetano em 1984, embora tenha sido liberada para o público sem restrições, também apresentou críticas às estruturas políticas e sociais. A composição direcionou o olhar para as relações de poder e para a própria sociedade civil, abordando sua responsabilidade diante dos problemas políticos e sociais. Faixa do álbum Velô, a música surgiu durante a campanha das Diretas Já, que mobilizou o país pela retomada das eleições presidenciais diretas, três anos antes do fim da ditadura militar.

É importante destacar que nem toda música associada à contestação foi formalmente proibida pelos censores. Algumas foram alvo de monitoramento, outras enfrentaram restrições e houve também apresentações que provocaram reações contrárias aos artistas.

A repressão, a prisão e o exílio

O pretexto para a prisão de Caetano e Gil teria sido uma apresentação na boate Sucata, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os artistas haviam realizado uma temporada no local ao lado de Os Mutantes.

Uma das justificativas apontadas para a prisão foi uma notícia divulgada pelo jornalista Randal Juliano, na TV Record, segundo a qual os músicos teriam cantado uma paródia tropicalista do Hino Nacional durante uma das apresentações.

Eles já eram monitorados pelo Estado, e suas produções artísticas apareciam em relatórios do Exército como manifestações consideradas subversivas à ordem vigente. Caetano tinha em seu prontuário a classificação "Subversão e incitamento à desordem". Os arquivos estão disponíveis no Banco de Dados Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.

Em 27 de dezembro de 1968, duas semanas após a assinatura do AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em São Paulo e encaminhados ao Rio de Janeiro. Inicialmente, permaneceram detidos em instalações militares e, posteriormente, foram transferidos para Salvador.

A prisão dos artistas não foi noticiada pela imprensa, que também estava submetida à censura. As famílias souberam do paradeiro dos dois cerca de um mês depois.

Após quase dois meses de detenção, em fevereiro de 1969, Caetano e Gil foram levados para Salvador, onde permaneceram em regime de confinamento vigiado. Eles estavam proibidos de realizar apresentações públicas e conceder entrevistas.

Em julho de 1969, os dois foram obrigados pelo regime militar a deixar o Brasil. Antes da partida, realizaram shows de despedida no Teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 20 e 21 de julho, que deram origem ao álbum Barra 69, lançado posteriormente.

Caetano seguiu para Londres com a então esposa, Dedé Gadelha. Gilberto Gil também foi para a capital inglesa com a esposa, Sandra Gadelha.

O exílio durou até janeiro de 1972, quando, após negociações e autorização do governo militar, Caetano retornou ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro.

A produção musical durante o exílio

O exílio em Londres também marcou profundamente a vida pessoal e a produção musical de Caetano Veloso. Diferentemente de Gilberto Gil, que se aproximou da cena cultural britânica e incorporou novas influências musicais, Caetano viveu o período de maneira mais solitária e melancólica, marcado pela saudade do Brasil.

Essa experiência se refletiu em seus trabalhos lançados durante o exílio. Em 1971, publicou o álbum Caetano Veloso, com músicas predominantemente em inglês e uma sonoridade mais intimista. Entre as faixas está "London, London", na qual expressa o sentimento de solidão ao percorrer as ruas da capital inglesa.

Já em 1972, lançou Transa, gravado em Londres no ano anterior. O disco reuniu influências do rock, elementos da música brasileira e letras que alternavam português e inglês. A saudade da terra natal e a experiência do afastamento aparecem na construção do álbum.

Mesmo longe do Brasil, o cantor não abandonou suas referências culturais. Em Transa, a mistura de idiomas, ritmos e elementos musicais demonstra como a experiência no exterior também passou a fazer parte de sua identidade artística.

A produção musical durante o exílio mostra que, mesmo afastado do país por determinação do regime militar, Caetano continuou utilizando a música como forma de expressão. A distância, a saudade e o contato com outras culturas passaram a integrar sua obra.

Caetano enfrentou a repressão, o exílio e a censura e, diante disso, continuou fazendo da arte um espaço de questionamento e expressão. As composições do artista registraram as tensões de uma época marcada pela violência política e pelas restrições à liberdade e, ainda assim, ajudaram a construir novas possibilidades para a MPB.

Décadas depois daquele cenário opressor, o Brasil ainda enfrenta disputas políticas e sociais que evidenciam que algumas marcas daquele período não ficaram no passado. Em meio à ascensão de movimentos e discursos de direita, a trajetória de Caetano permanece como exemplo de uma arte que ultrapassa o entretenimento e se torna instrumento de luta e resistência diante das diferentes formas de opressão e autoritarismo.