Cooperativismo
Cooperativas de crédito ampliam inclusão financeira em pequenos municípios
Estudo apresentado no EnANPAD 2025 identificou resultados positivos e persistentes entre 2017 e 2022, com diferenças de até 7,1 pontos em índice que avalia acesso e uso de serviços financeiros
A presença exclusiva de cooperativas de crédito está associada a níveis mais elevados de inclusão financeira em municípios brasileiros com até 50 mil habitantes. É o que aponta uma pesquisa apresentada no Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (EnANPAD) de 2025, que identificou diferenças positivas e estatisticamente significativas entre 2017 e 2022.
O estudo analisou dados de 2016 a 2022 e comparou municípios com características semelhantes, mas com diferentes configurações de atendimento financeiro. Nos locais atendidos exclusivamente por cooperativas, o índice de inclusão financeira ficou, em média, entre 5,3 e 7,1 pontos acima do observado em municípios sem instituições financeiras.
O que é inclusão financeira?
A inclusão financeira vai além da possibilidade de abrir uma conta bancária. O conceito envolve o acesso e o uso de produtos e serviços financeiros, além de aspectos como custo, qualidade do atendimento, educação financeira e proteção dos consumidores.
Para avaliar esse cenário, os pesquisadores utilizaram um índice municipal com escala de zero a 100, composto por três dimensões: acesso, uso e potencial digital.
O acesso considera a quantidade de agências e estruturas bancárias e cooperativas em relação à população. Já o uso é medido pelos valores de crédito e depósitos por habitante. A dimensão digital, por sua vez, considera a proporção de acessos à internet em relação ao número de moradores.
As variáveis foram padronizadas e receberam pesos iguais dentro de cada dimensão. Os três componentes também tiveram a mesma participação no cálculo final. Assim, quanto maior a pontuação, maior o nível de inclusão financeira identificado pelos indicadores utilizados.
Como a pesquisa comparou os municípios
A análise foi realizada por meio do pareamento por escore de propensão, método estatístico que permite aproximar municípios com características semelhantes em aspectos como mercado de trabalho, localização, demografia e desenvolvimento.
A amostra foi limitada a cidades com até 50 mil habitantes. Segundo o estudo, não havia municípios maiores sem instituições financeiras em quantidade suficiente para formar um grupo de comparação adequado. Por isso, os resultados não devem ser automaticamente estendidos a capitais e regiões metropolitanas.
O efeito estimado representa uma diferença média entre municípios com presença exclusiva de cooperativas e localidades semelhantes sem instituições financeiras. Portanto, não significa que todas as cidades atendidas por cooperativas tenham apresentado exatamente o mesmo resultado.
Diferença chegou a 7,1 pontos
Em 2016, o efeito associado à presença exclusiva de cooperativas foi positivo, mas não apresentou significância estatística. A partir de 2017, porém, os resultados foram positivos e estatisticamente significativos em todos os anos até 2022.
Nesse intervalo, a diferença média variou de 5,3 a 7,1 pontos no índice de inclusão financeira. Os números representam pontos na escala de zero a 100, e não percentuais ou taxas de crescimento.
Para ilustrar, em uma comparação hipotética, se um município sem instituição financeira apresentasse 35 pontos, uma diferença estimada de sete pontos corresponderia a uma pontuação de 42 para uma localidade semelhante atendida por cooperativa. O exemplo serve apenas para explicar a escala e não representa municípios específicos da pesquisa.
A continuidade dos resultados ao longo de seis anos também foi destacada pelos pesquisadores, por indicar que a diferença não se limitou a um período isolado.
Comparação com os bancos comerciais
O levantamento também identificou contribuição positiva dos bancos comerciais para a inclusão financeira entre 2016 e 2021, embora com efeitos menores. O maior resultado associado à presença exclusiva de bancos foi de 3,4 pontos, em 2021. Em 2022, a estimativa caiu para 0,22 ponto e não apresentou significância estatística.
Nos municípios onde bancos e cooperativas atuavam simultaneamente, os efeitos estimados foram ainda maiores, variando de 5,1 pontos, em 2016, a 11 pontos, em 2021.
Esse resultado indica que a presença conjunta de diferentes instituições pode ampliar o acesso e o uso de serviços financeiros. No entanto, não permite determinar quanto da contribuição corresponde individualmente aos bancos ou às cooperativas.
Limites do indicador
Apesar de oferecer uma visão sobre o acesso, a movimentação financeira e o potencial digital, o índice não contempla diretamente fatores como custo do crédito, qualidade do atendimento, adequação dos produtos, educação financeira, proteção do consumidor e superendividamento. Também não permite identificar se os benefícios alcançaram igualmente todos os grupos sociais.
Os pesquisadores ainda apontam uma ressalva metodológica: a quantidade de pontos de atendimento das cooperativas integra a dimensão de acesso do próprio índice. Embora o indicador também considere uso e potencial digital, essa característica deve ser levada em conta na interpretação dos resultados.
Dentro dos limites da análise, a pesquisa identificou uma associação consistente entre a presença exclusiva de cooperativas e níveis mais elevados de inclusão financeira nos pequenos municípios brasileiros. O desafio, a partir desse cenário, é garantir que a ampliação do acesso também se traduza em serviços adequados, seguros e sustentáveis.
