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'São Paulo Sociedade Anônima' (1965): a cidade grande engole vidas pequenas
Indicação cultural do filme 'São Paulo Sociedade Anônima' (1965), dirigido por Luiz Sergio Person
Para onde se deve fugir quando tudo é dominado pelo que te atormenta? São Paulo é cinza, um cinza tão singular que apenas pisando na cidade se torna possível reconhecer o tom. O mundo todo alavancou o nascimento dessa grande capital, que, nos anos sessenta, se torna cenário de evolução na indústria. Carlos (Walmor Chagas) sente esse lugar, no frio que arde e na fumaça que purifica. Luiz Sergio Person mostra que São Paulo engole sem pedir licença.
A turbulência do filme segue o ritmo frenético da capital, uma movimentação que pode parecer confusa nos primeiros minutos por se tratar de pedaços de memórias do personagem. Acompanhamos Carlos, um inspetor de qualidade de uma grande montadora paulista, que divide sua vida entre mulheres e trabalho. Sua relação com ambas as coisas é vazia: mal conhece as mulheres com quem convive e não se sente pleno no que faz.
Todo o longa nos guia por uma jornada exaustiva de solidão e angústia. Nos perdemos junto do protagonista dentro das narrativas desconexas e dos personagens filtrados pela visão vazia de Carlos. Recém-industrializada, São Paulo deixa para trás convenções sobre liberdade e prioriza o resultado do trabalho. Os monólogos de Carlos são repetitivos, enquanto assistimos a cenas infinitas de uma rotina exaustiva.
Carlos decide escolher os relacionamentos como forma de escapar daquilo que enxerga. As mulheres representam a maneira como Carlos enxerga a si mesmo e a cidade. Hilda (Ana Esmeralda), sua paixão antiga, é o passado que não existe mais; Ana (Darlene Glória) é a visão do prazer e da liberdade que não consegue atingir; e Luciana (Eva Wilma) é a figura de classe média que condiz com a imagem da mulher perfeita, esperada para um homem em ascensão.
Dentre as três mulheres, Hilda consegue se destacar por ter uma narrativa que se sobrepõe a visão limitada de Carlos. Intelectual e fria, Hilda é uma mulher que tenta sobreviver ao que é São Paulo. Quando encontra um amor, se distancia da selva de pedra e se muda para longe. Mas, em determinado ponto, quando perde o parceiro, percebe que é incapaz de sobreviver ao terror das engrenagens e comete suicídio. À medida que nos aproximamos desse fato, o filme ganha lógica narrativa, deixando de ser lembranças e passando a ser história.
O ato de Hilda demonstra algo fora de ordem para Carlos: a coragem de fugir de uma vez por todas daquilo que a aprisionava. Ao casar com Luciana, ter a família que pensava precisar ter e ser promovido no trabalho, o protagonista entende que nunca será capaz de sentir acalento dentro daquela realidade. Ele tenta fugir, abandona Luciana sem pensar, mas encontra São Paulo novamente. São Paulo é o seu recomeço interminável, assim como as máquinas que o cercam, as mulheres que escolhe e os desejos que nunca chegam.
