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Literatura sul-africana amplia perspectivas e desafia estereótipos, avalia
Cada país tem sua trajetória própria. No caso da África do Sul, tema do episódio da série BRICS na estante, o apartheid é o elemento singular. O regime racistpaís tem sua trajetória própria. No caso da África do Sul, tema do episódio da série BRICS na est
Mais do que retratar a história do continente, a literatura sul-africana exerce papel fundamental na reconstrução das identidades nacionais, no resgate de tradições e na elaboração dos traumas provocados pelo colonialismo, guerras e o apartheid.
Essa é a análise da doutora em literaturas africanas e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Aza Njeri, em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil. Segundo ela, uma nova geração de escritores amplia essas perspectivas ao desafiar estereótipos sobre o continente africano e propor novas formas de pensar o presente e o futuro da África.
"A literatura tem esse diálogo profundo com a cultura e com a filosofia. Então, quando você entra numa obra de literaturas africanas, encontra um novo mundo em sua totalidade: a cena, a paisagem, a escrita e, principalmente, o pensamento filosófico", afirma Njeri.
Composta por 54 países, a África apresenta uma produção literária extremamente diversa, abordando desde o contato com o imperialismo europeu e as novas fronteiras impostas até textos que utilizam experiências anteriores ao colonialismo para colaborar na reconstrução da identidade nacional pós-independência.
"Isso já é uma grande questão a ser debatida pelas literaturas africanas em relação à identidade, porque, afinal, como pensar a noção de nação se, antes disso, existe a questão comunitária e étnica?" questiona a especialista.
Cada país tem sua trajetória própria. No caso da África do Sul, tema do episódio da série BRICS na estante, o apartheid é o elemento singular. O regime racistpaís tem sua trajetória própria. No caso da África do Sul, tema do episódio da série BRICS na estante, o apartheid é o elemento singular. O regia e segregacionista violou direitos humanos, criminalizou e matou pessoas não brancas em todo o país.
"O apartheid é uma ferida, uma chaga social e trauma naquela sociedade, tornando-se temática recorrente nas literaturas produzidas na África do Sul. Essa é uma característica-chave que diferencia o país de outros, onde o foco recai sobre temas como guerra civil."
No entanto, Njeri explica que o tema é abordado de diferentes formas e atualizado ao longo do tempo, como no livro Madames, de Zukiswa Wanner, lançado em 2006.
"Não fala do apartheid no sentido das divisões do século XX, mas trata da continuidade de um apartheid contemporâneo à revelia das instituições nacionais. Existe um trauma persistente na sociedade sul-africana."
A professora cita ainda o ativista Steve Biko, perseguido e assassinado em setembro de 1977, cujos escritos influenciaram não só a produção literária e intelectual da África do Sul, mas também a de diásporas africanas, inspirando movimentos antirracistas ao redor do mundo, como os Panteras Negras.
Entre os autores destacados por Njeri estão Futhi Ntshingila, autora de Sem Gentileza, que discute o impacto do HIV na sociedade sul-africana, e o Nobel de Literatura de 2003, John Maxwell Coetzee. Seu livro Desonra (1999) aborda a relação entre um professor e uma aluna, seus dilemas morais e o fim do apartheid.
Njeri também menciona O Cio da Terra: Vida e Época de Michael K, que narra a trajetória de um jovem com lábio leporino durante uma guerra civil fictícia no país. "A trajetória desse personagem oferece um panorama lúcido e árido da África do Sul dos anos 70 para os anos 80."
Segundo a especialista, o poder político e pedagógico da arte e da literatura contribuiu para mudar a imagem internacional da África do Sul.
"A arte, em geral, tem esse poder político, poético e pedagógico. E, certamente, a literatura produzida na África do Sul questiona, constrói e nos ajuda a compreender a geopolítica e o contexto social do país."
Como a África do Sul viveu sob repressão até os anos 1990, um elemento marcante da literatura atual é a "coragem de dar nome aos bois", ou seja, abordar tabus sociais e históricos. "Uma das coisas mais revolucionárias que estamos testemunhando nas literaturas negras", destaca Njeri.
Um exemplo é o livro Nascido do crime: Histórias da minha infância na África do Sul, do comediante Trevor Noah. Filho de um casal interracial, o relacionamento de seus pais era considerado crime pelas leis de segregação racial.
Segundo Njeri, essas produções fogem da tendência estimulada pelo Ocidente, que ela denomina "abutrismo" — conceito criado para explicar a preferência por narrativas que destacam as tragédias do continente africano.
"Precisamos revisitar o passado para evitar que ele se repita. Mas é interessante notar a predileção do mercado de arte, inclusive da literatura, por narrativas que enfatizam o estado de Maafa, ou seja, a desumanização radical dessa população. Sabemos da nossa desgraça e desumanização, mas ainda assim conseguimos continuar, permanecer e progredir. Essa é uma virada nas literaturas negras."
A literatura, como instrumento de soft power no cenário geopolítico internacional, também ajuda a desconstruir estereótipos, construir novos imaginários e, principalmente, contribuir para a humanização dessas sociedades, aponta a professora.
"No combate ao racismo, à xenofobia e à ignorância que assola as sociedades humanas, a literatura contribui para uma imagem positiva da África do Sul, reforça a pluralidade cultural e promove o exercício social e cidadão", conclui Njeri.
Por Sputnik Brasil
