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Alagoanos indicados ao Oscar 2026 revelam bastidores das gravações de O Agente Secreto
Filme de Kleber Mendonça Filho concorre em quatro categorias; Ane Oliva, Aline Marta Maia e Igor de Araújo fazem parte do elenco
Alagoas será bem representada no Oscar 2026, uma das premiações mais importantes do cinema mundial e um prestígio para quem faz e resiste na produção de filmes. "O Agente Secreto", dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator (Wagner Moura). A lista dos indicados foi divulgada na última quinta-feira (22).
No elenco do filme brasileiro, estão nada mais nada menos que os alagoanos Ane Oliva, Igor de Araújo e Aline Marta Maia, que brilhou nos palcos do Arte Pajuçara sendo a grande homenageada na 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano em 2025.
O Agente Secreto retrata os anos de 1977. Marcelo, interpretado por Wagner Moura, trabalha como professor especializado em tecnologia e decide fugir de seu passado violento e misterioso se mudando de São Paulo para Recife. A intenção dele é recomeçar sua vida. Marcelo chega na capital pernambucana na semana do Carnaval e percebe que atraiu para si todo o caos do qual ele sempre quis fugir.
Ao Jornal de Alagoas, os artistas alagoanos revelaram os bastidores do longa-metragem, falaram sobre o convite para participar do elenco e o sentimento em relação às indicações ao Oscar.
Para Aline Marta, que é natural de Maceió, foi uma surpresa saber que o filme foi indicado e espera que o Brasil leve ao menos duas estatuetas. "Isso é de uma importância fenomenal para o cinema nacional, para o cinema alagoano, para o cinema do nordeste. Para o Brasil de uma forma geral é visibilidade. Isso significa que nós existimos", comemorou a atriz.
Já Ane Oliva declarou que ficou extremamente honrada com as indicações e que a conquista é fruto de uma persistência e fé no cinema brasileiro. "Essa conquista é nossa, do povo brasileiro. Estar indicado já é uma grande vitória, temos que vibrar, divulgar e nos orgulhar muito. É acreditar nas nossas histórias, na nossa identidade cultural e na nossa capacidade de desenvolvimento a partir da cultura. Estou muito feliz."
Além dos atores, também participaram do filme os alagoanos Albert Tenório e Gabriela Miranda.
A cerimônia de premiação acontece no dia 15 de março, no Teatro Dolby, em Los Angeles.

Das self-tapes para Hollywood
O convite para participar do filme chegou como uma grata surpresa para Igor. Segundo ele, o produtor de elenco, Gabriel Domingues, enviou uma solicitação de teste, que consistia no envio de uma self-tape (um tipo de gravação de si mesmo interpretando algum personagem por meio das câmeras).
"Eu já havia trabalhado como ator em Recife, em 2022, com a produtora de Kleber Mendonça Filho, a Cinemascópio. Um dos dos diretores do trabalho, Leonardo Lacca, gostou do meu trabalho e, quando os testes para "O Agente Secreto" começaram, imagino que ele tenha me indicado para o papel. Sou muito grato a eles e também a Carol Martins e Marcelo Caetano", contou o ator.
Já Aline contou que conseguiu uma vaga no filme após a produção entrar em contato com a agência dela. Foi repassado um material para ela fazer uma self-tape, que foi enviada e aceita. Depois do resultado, a atriz participou de um ensaio em Recife, onde descobriu que a personagem não condizia com a do self-tape. "Era outro personagem, outra cena. Perguntei quem faria o outro personagem e me disseram: 'Wagner Moura'. Eu pirei", relatou, emocionada.
A artista interpreta a sogra do personagem de Wagner, que é recebido por ela quando vai a Recife visitar o filho. A cena consistia em dar um grande abraço no personagem e recebê-lo em casa. Durante os ensaios, Aline conheceu Kleber, Wagner e outros atores. "Todos muito tranquilos, pé no chão, gente boa. Me senti acolhida, tratada como igual. Claro que fiquei babando como fã no começo, mas logo tudo ficou tranquilo."
No mesmo período, Ane Oliva acompanhava o trabalho de Kleber Mendonça Filho pelas redes sociais e se deparou com uma publicação dele, na qual continha um cartaz divulgando uma seleção de elenco para o próximo filme. A atriz rapidamente enviou o material e, um tempo depois, a produção do elenco entrou em contato pedindo uma self-tape. Ela enviou o vídeo e a produção gostou do que viu, confirmando logo em seguida a participação dela no elenco.
"Fiquei radiante, super feliz, porque é uma conquista enorme, especialmente para quem atua em Alagoas", declarou.

Bastidores de gravação
A atriz Ane Oliva contou que, após a seleção, houve um processo de pré-produção, preparação e caracterização. A personagem que ela interpretou participa de uma pequena cena, mas muito emblemática e de grande carga emocional.
"É uma cena que faz referência ao caso do menino Miguel, que ainda repercute muito na sociedade. Foi um desafio de dar foz e corpo àquela mulher, mas o momento no set foi muito emocionante", destacou.
Ela também revelou que Kleber foi extremamente simpático durante os ensaios, além de delicado no trato e muito direto. Para a atriz, o diretor sabia o que queria e transmitiu muita segurança, dando liberdade e confiança nos atores. "O set era gigante, uma superprodução, com muitos profissionais e uma equipe muito coesa. Tinha muitos profissionais de Recife com que meu já havia trabalhado, o que me deixou ainda mais à vontade", disse Ane, que comentou que foi muito bem recebida pela equipe e pela produção.

O personagem de Igor de Araújo era um policial civil que, ao lado de outros dois policiais (vividos por Ítalo Martins e Robério Diógenes) se envolve em situações suspeitas e inusitadas, como a história de uma perna humana encontrada na barriga de um tubarão. Os personagens estão inseridos no contexto da ditadura militar brasileira e representam o abuso de poder e o autoritarismo praticados no país. O ator alagoano também contracena diretamente com Wagner Moura.
Para Igor, gravar com Kleber e contracenar com Moura foi uma grande experiência, pois ele acredita que os dois dominam a linguagem cinematográfica com habilidade e conseguem escolher papéis de forma criteriosa. "Além deles, também pude trabalhar com atores e atrizes de vários estados do Brasil, todos de enorme talento - não à toa o filme tem sido considerado para premiações de melhor elenco", disse.
O artista também destacou o trabalho de figurino, direção de arte e caracterização, que foram muito bem cuidados no filme. Rita Azevedo, Thales Junqueira e Marisa Amenta comandam os setores.
"Lembro de como, durante a prova de figurino, compreendi alguns aspectos da natureza da personagem ou, no set de filmagem, quando vi carros, objetos de cena e locações que retratavam os anos 1970 no Brasil, e de quanto tudo isso contribuiu para que acreditássemos nas situações propostas pela história. Essa simbiose nem sempre acontece, mas, dessa vez, aconteceu", relatou o ator.

Após a self-tape e a convocação para integrar ao filme, Aline Marta começou os ensaios com a equipe. Voltou para Maceió e depois só voltou para Recife no dia da filmagem. Depois de alguns dias, voltou para gravar em uma pequena vila antiga da cidade.
"As locações que o Kleber escolheu foram fantásticas. A cena na minha casa exigiu um dia inteiro de trabalho para uma cena pequena. Mas, cinema é isso. As pessoas, quando veem o trabalho pronto, não sabem o quanto tempo levou para se fazer uma cena de cinco minutos. Você leva o dia inteiro", comentou a atriz.
Aline acredita que muita coisa foi mudando durante o dia, porém o clima nos bastidores, para ela, foi maravilhoso e sem estrelismos.
"Todo mundo trabalhando junto. Kleber é um cara que sabe o que quer, mas é muito aberto às sugestões dos atores para melhorar a cena. As coisas foram mudando durante o dia, até porque uma coisa é ensaiar em uma sala vazia, outra é atuar dentro de um cenário real, que era uma casa pequena, com algumas restrições de espaço", contou a atriz em relação ao local onde a personagem dela morava.
Marta chamou a atenção para a intensidade da cena que ela participou, dando ênfase na generosidade que Kleber teve para com o elenco. "É uma cena pequena, mas é uma cena forte. Foi perfeito. Kleber colocou praticamente o Nordeste no mundo através desse filme. Tem gente de todo lugar do Nordeste. Acho que Alagoas está muito bem representada", concluiu.

Trajetórias Artísticas
Igor de Araújo
Nascido em Maceió, Igor de Araújo é servidor da Justiça Eleitoral há 10 anos e iniciou sua trajetória artística ainda no ensino médio, quando participou de aulas de teatro amador. Na época, a escola oferecia a disciplina “Redação e Artes”, ministrada por Nilton Resende, que mais tarde se tornaria um de seus melhores amigos e padrinho de sua filha. Foi Nilton o responsável por incentivá-lo a atuar.
Ao concluir o ensino médio, Nilton Resende e Fátima Farias - hoje companheira de Igor - estavam fundando a Companhia Ganymedes de Teatro. Igor foi convidado a integrar o grupo e participou de seu primeiro espetáculo de teatro de grupo, “O Mágico”, adaptação da novela Mário e o Mágico, de Thomas Mann. Desde 2006, o artista integra a Companhia Ganymedes de Teatro.
A partir do teatro, Igor passou a atuar também no audiovisual, participando de curtas e médias-metragens alagoanos como “Km 58”, de Raphael Barbosa, e “Interiores ou 400 anos de Solidão”, de Werner Salles Bagetti. Trabalhou ainda com Flávio Rabelo na ação performática “Emciscos”. Em 2017, realizou seu primeiro longa-metragem, “Serial Kelly”, dirigido por René Guerra.
Nesse período, Igor tornou-se servidor público da Justiça do Trabalho, morou em São Paulo por quase oito anos, realizou cursos livres de teatro e participou de algumas séries. Durante a pandemia, retornou a Alagoas, tornou-se pai, conseguiu transferência para a Justiça Eleitoral e passou a trabalhar no sertão alagoano. Chegou a acreditar que não voltaria a atuar - um pensamento frequente na vida de muitos atores - , mas retomou a carreira com trabalhos em Pernambuco, entre eles “O Agente Secreto”, seguindo em atividade artística, ainda sem saber o que há pela frente.
Essa trajetória vem sendo construída ao longo de anos, e estar no filme de Kleber Mendonça Filho representa a realização de um sonho, motivo de grande felicidade para o artista.

Aline Marta
Atriz alagoana, Aline Marta vem se consolidando como um dos nomes da nova geração das artes cênicas em Alagoas. Sua trajetória é construída a partir do teatro em Maceió e expandida para o audiovisual, com formação artística diretamente ligada à vivência prática nos palcos, a cursos de interpretação e à participação em grupos e projetos culturais.
No teatro, Aline se destacou em montagens que dialogam com temas sociais, identidade, memória e o cotidiano nordestino, explorando diferentes linguagens cênicas e estilos de atuação. A experiência nos palcos foi fundamental para moldar sua presença cênica e aprofundar sua relação com o corpo, a voz e a dramaturgia brasileira, revelando uma atuação marcada pela sensibilidade, entrega e rigor técnico.
No cinema, participou dos filmes “Casa de Antiguidades” (2020), “Curral” (2021), “Carvão” (2022) e “Pedágio” (2023).
Ane Oliva
Atriz alagoana, Ane Oliva constrói sua trajetória artística a partir de uma relação profunda com o teatro e com as expressões culturais do estado. Sua formação se dá pela vivência nos palcos, pela participação em cursos, oficinas e processos colaborativos, desenvolvendo uma atuação sensível, comprometida e atenta às questões humanas e sociais da dramaturgia contemporânea.
No teatro, Ane integrou montagens que exploram temas como identidade, afetos, memória e realidade social, sempre em forte conexão com o território nordestino. Essa experiência cênica consolidou sua presença em cena e sua capacidade de transitar por diferentes linguagens, do drama à experimentação.
No audiovisual, participou dos filmes:
- “Carro Rei” (2021), direção de Renata Pinheiro
- "Infantaria", direção de Laís Santos Araújo
- “Curral” (2020), direção de Marcelo Brennand
- “A Barca” (2020), direção de Nilton Resende
- “Propriedade Privada” (2008), direção de Joachim Lafosse



