Eleições 2026
Tarifaço dos EUA agita cenário político e impacta eleições no Brasil
A medida pode trazer impactos variados, mas, segundo especialistas, a influência americana já não é tão decisiva para o Brasil
Os Estados Unidos propuseram uma tarifa de 25% sobre algumas importações brasileiras, alegando que o Brasil adota práticas comerciais consideradas não razoáveis e que "sobrecarregam ou restringem o comércio dos EUA". A medida pode trazer impactos variados, mas, segundo especialistas, a influência americana já não é tão decisiva para o Brasil.
A conclusão preliminar da investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), com base na Seção 301 da legislação norte-americana, foi divulgada nesta segunda-feira (1º), quase um ano após seu início, em julho de 2025.
O governo brasileiro manifestou indignação com o resultado, classificando a condução do processo como tentativa de ingerência em temas internos do país, similar à visita recente do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Segundo o Planalto, tais "investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos públicos para conspirar contra os interesses nacionais".
"É lamentável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e [Donald] Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares", declarou o Planalto.
O governo também argumentou que não há justificativa para medidas unilaterais contra patrimônios nacionais, como o caso do PIX. Em resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante agenda em Catalão (GO), exibiu um cartaz com a frase: "O PIX é do Brasil".
Durante discurso, Lula afirmou que as tarifas foram adotadas de forma intempestiva, durante negociações entre Brasília e Washington, baseando-se em informações falsas.
"Eles alegam que têm déficit comercial com o Brasil, mas, em 15 anos, acumularam US$ 415 bilhões de superávit comercial. E a segunda coisa que me preocupa é porque o PIX assusta eles. Eu disse: 'Oh, Trump, ao invés de temer o PIX, implemente o PIX nos Estados Unidos. Faça um PIX para nós'."
Lula também comentou as relações dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro com membros do governo norte-americano, chamando-os de traidores da pátria.
"Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele e, na verdade, são vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras", disse.
O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, tentou se desvincular das possíveis tarifas. Em publicação na rede social X, defendeu que "tarifar não é a solução". Em outra postagem, destacou reuniões com Trump e reforçou a pauta de classificar organizações criminosas como terroristas.
Apesar de as negociações sobre as tarifas seguirem em curso e de uma decisão concreta estar prevista para meados de julho, o tema já movimenta o cenário político brasileiro a menos de quatro meses das eleições.
Para o economista Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper e gestor da Carmel Capital, o movimento do governo norte-americano é resultado de um processo iniciado no ano passado, não estando diretamente relacionado à ida de Flávio a Washington.
Segundo Chaia, "a ida de Flávio para tentar melhorar sua imagem acabou servindo de gatilho para uma direita americana que estava adormecida, especialmente após falas de Trump sobre Lula".
Chaia também destaca pressões de grandes empresas de tecnologia contra o governo brasileiro, que podem aproveitar o momento para buscar vantagens.
"Tudo isso está num caldeirão misturado, embora os fatos não tenham a mesma origem. Pode haver uma tentativa da direita de influenciar as eleições a partir dessa situação", avalia.
Já Ana Carolina Marson, professora e doutora em relações internacionais, afirma que os EUA têm assuntos mais urgentes em pauta, como a guerra no Irã, e que o Brasil não é prioridade para a política doméstica americana. No entanto, há interesse de Washington nas terras raras brasileiras, e o tarifaço pode ser uma forma de pressionar o Brasil comercialmente, inclusive quanto ao uso desses recursos.
Possíveis setores afetados e diversificação de parcerias
De acordo com os especialistas, setores estratégicos como alimentos (carnes e frutas), aviação e mineração devem ficar de fora das tarifas, caso sejam implementadas. Os principais alvos seriam os setores de calçados, maquinário e madeireiro.
Chaia avalia que o impacto tende a ser menor do que em anos anteriores, quando Trump impôs tarifas a vários países, inclusive ao Brasil.
"Os Estados Unidos já não são tão importantes como na época da guerra tarifária do Trump. O Brasil já firmou acordos com a Europa, melhorou relações com a China e amplia parcerias na Ásia", analisa. Para ele, as tarifas têm mais efeito psicológico do que prático neste momento.
No âmbito das negociações, o governo brasileiro adota postura de não confrontação, evitando retaliações e fortalecendo parcerias alternativas, sinalizando aos EUA que tarifas podem significar perda de mercado.
Episódios como a visita de Lula à Casa Branca e a troca de elogios entre os presidentes transmitiram uma imagem de estabilidade nas relações Brasil-EUA, mas a situação atual traz incertezas, especialmente com Trump no comando, figura conhecida por sua instabilidade.
"O fato de a conversa ter sido bem-sucedida foi um passo inicial importante, mas Trump adota uma postura de embate e negociações assimétricas", observa Marson.
Para a professora, os Estados Unidos continuam a explorar a política do "grande irmão" em relação à América Latina. "Agora vemos que Donald Trump quer retomar essa assimetria de poder", conclui.


