Economia

Reforma tributária pode comprometer crédito em 66,2% das notas fiscais

Com a reforma, o regime de créditos tributários foi generalizado, extinguindo regimes especiais e cumulativos

Por Agência Brasil 06/07/2026 18h06
Reforma tributária pode comprometer crédito em 66,2% das notas fiscais
Com a reforma, o regime de créditos tributários foi generalizado, extinguindo regimes especiais e cumulativos - Foto: Reprodução

Em fase de testes em 2026 e com implementação prevista para 2027, a reforma tributária impõe desafios significativos à forma como as empresas controlam impostos e aproveitam créditos tributários.

De acordo com levantamento da V360, empresa de tecnologia especializada na automação de processos fiscais e de pagamento a fornecedores, 66,2% das notas fiscais eletrônicas (NF-e) analisadas apresentam problemas que podem dificultar o aproveitamento desses créditos no novo sistema.

    Os créditos tributários permitem o abatimento de tributos pagos sobre insumos ao longo da cadeia produtiva, evitando a cobrança em cascata — ou seja, a tributação repetida sobre o insumo e o produto final. Com a reforma, o regime de créditos tributários foi generalizado, extinguindo regimes especiais e cumulativos.

    O estudo “Termômetro do Crédito IBS/CBS” analisou, de forma anônima, mais de 6,4 milhões de notas fiscais processadas pela plataforma da V360. Entre elas, 64,4% apresentavam campos de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) sem preenchimento.

    Outros 1,8% dos documentos apresentaram divergências entre os cálculos informados pelos fornecedores e os valores utilizados como referência para validação.

    Na prática, mesmo quando uma nota fiscal é emitida, erros ou informações incompletas podem impedir que a empresa compradora aproveite integralmente os créditos tributários previstos pela reforma.

    Novo modelo

    O IBS e a CBS substituirão gradualmente os tributos atuais sobre o consumo. Nesse novo modelo, as empresas poderão descontar dos impostos a pagar parte dos tributos recolhidos na compra de mercadorias e serviços. Para isso, no entanto, as informações das notas fiscais precisarão estar corretas e validadas ao longo de toda a operação.

    Além da emissão da nota, ganham importância os chamados eventos fiscais, como confirmação da operação, recusas e outras manifestações registradas no documento eletrônico. Essas informações serão essenciais para comprovar o direito ao crédito perante o Fisco.

    Para Izaias Miguel, co-CEO da V360, o maior desafio das empresas não estará na emissão das notas, mas na conferência dos documentos recebidos.

    “O mercado fala muito sobre como emitir a nota no novo modelo, mas o ponto crítico para quem opera em grande escala será receber, validar e garantir o crédito. Se a empresa não conseguir organizar o ingresso fiscal, ela pode ter nota emitida corretamente pelo fornecedor, mas ainda assim enfrentar divergências, atrasos e risco de perda de crédito”, afirma.

    Cadeia de risco

    O levantamento mostra ainda que apenas 35,8% dos 139 mil fornecedores analisados preencheram corretamente os novos campos de IBS e CBS. Os demais 64,2% ainda não estão adequados às novas exigências.

    Segundo a V360, isso significa que o direito ao crédito tributário dependerá também da qualidade das informações prestadas pelos fornecedores, tornando a gestão da cadeia de suprimentos um fator essencial para evitar perdas financeiras.

    Outro dado que indica o estágio inicial de adaptação é que, entre mais de 10,8 milhões de eventos registrados nas Secretarias Estaduais da Fazenda (Sefaz), apenas 0,04% estavam relacionados às novas funcionalidades previstas na reforma tributária.

    Automação ganha peso

    Na avaliação de Izaias Miguel, o novo modelo exigirá processos mais integrados entre áreas fiscal, financeira, compras, tecnologia e jurídica, além de maior uso de ferramentas de automação para validar documentos em grande escala.

    “A reforma tributária aumenta o custo do erro operacional. Uma divergência que antes gerava retrabalho interno pode passar a afetar crédito, caixa e conformidade fiscal. O destinatário passa a ter uma função muito mais ativa na cadeia tributária”, ressalta.

    Ele afirma que a preparação para a reforma vai além da atualização de sistemas e exige uma revisão completa da forma como as empresas recebem, conferem e registram documentos fiscais.

    “Grandes empresas precisarão sair de uma lógica reativa para uma lógica preventiva. Não basta receber a nota e corrigir depois. Será necessário validar antes, identificar riscos em tempo real e garantir que o crédito esteja protegido desde o início do processo”, orienta.

    Pequenas empresas

    Segundo Miguel, a reforma afetará empresas de todos os portes, porém de maneiras diferentes.

    Nas grandes companhias, o desafio será a complexidade operacional. Essas empresas costumam possuir várias unidades, grande volume de notas fiscais, diferentes áreas envolvidas no processo e sistemas de gestão (ERPs) antigos ou altamente customizados, o que torna a adaptação mais demorada e aumenta o risco de inconsistências.