Economia

Editoras independentes reinventam mercado editorial e ampliam acesso à leitura

Clubes do livro, financiamento coletivo e venda direta aproximam leitores e ajudam a enfrentar desafios econômicos

Por Redação* 11/01/2026 11h11
Editoras independentes reinventam mercado editorial e ampliam acesso à leitura
Livrarias de rua e editoras independentes fortalecem a economia criativa e estimulam a circulação de ideias no país - Foto: Agência Brasil

Editoras independentes e livrarias de rua vêm seguindo caminhos distintos dos grandes conglomerados editoriais e adotando estratégias próprias para preservar a qualidade das publicações e enfrentar os desafios econômicos do setor editorial e livreiro no Brasil. Considerando também as empresas de maior porte, o segmento gera pelo menos 70 mil empregos diretos no país, de acordo com levantamento da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

Profissionais ouvidos pela Agência Brasil destacam a promoção da cultura, além da geração de emprego e renda, como impactos positivos dessas iniciativas. Ao mesmo tempo, apontam a necessidade de políticas públicas voltadas à ampliação do acesso à leitura, bem como incentivos fiscais que garantam a sustentabilidade desses empreendimentos.

Mesmo com menor capacidade de investimento, editoras independentes conseguiram ampliar o catálogo de autores disponíveis no país, incluindo traduções de obras contemporâneas reconhecidas internacionalmente que não encontravam espaço nas grandes casas editoriais. Também houve maior aproximação com o público leitor, por meio de estratégias como financiamento coletivo, clubes do livro e uso intensivo das redes sociais.

“A editora independente é marginalizada no mercado. Então, ela está sempre tentando transformar esse mercado”, afirma o editor e publisher da Autonomia Literária e da revista Jacobina, Cauê Seignemartin Ameni.

Segundo ele, o crescimento das editoras independentes ganhou força há cerca de dez anos. “O independente sempre foi muito marginal e, aí, veio com força após 2015”. O movimento se intensificou após crises no setor, como a recuperação judicial das livrarias Cultura e Saraiva, em 2018, que afetou editoras de todos os portes e resultou em calotes.

Nos últimos anos, porém, dados da CBL indicam expansão do mercado editorial e livreiro, especialmente no período pós-pandemia. Entre 2023 e 2025, houve crescimento de 13% no número total de empresas, com destaque para editoras e o comércio varejista de livros. De 2024 para 2025, o avanço foi registrado em todos os segmentos analisados.

Debates independentes


As editoras independentes têm sido responsáveis por trazer ao debate brasileiro temas já discutidos em outras partes do mundo, favorecendo a circulação de ideias, avalia Cauê. Ele observa que, antes do fortalecimento desse segmento, a publicação de clássicos e obras críticas estava limitada por “um viés ideológico de grandes editoras e conglomerados”.

“O meu papel é de importador de ideias, de certa forma”, resume. Entre os temas abordados, ele cita China, inteligência artificial, crise climática, ascensão do fascismo na Europa, Estado Islâmico e Palestina.

“São crises que afligem o Brasil, que é um país que, por exemplo, recebe muitos refugiados. É preciso entender a origem. Então, [nosso papel é] ajudar o brasileiro a compreender o mundo”, afirma. “Se as pessoas não entendem, o país acaba entrando numa grande confusão, numa grande enrascada, que foi o bolsonarismo. Se criou um caldo cultural para isso, e teve um trabalho forte [de autores e editoras]”.

Na época da ascensão da extrema-direita e do antipetismo, Cauê mantinha uma livraria dentro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ele relata que começaram a surgir publicações associadas ao chamado olavismo cultural, com a disseminação de ideias ultraconservadoras do filósofo Olavo de Carvalho.

“A leitura de esquerda existe, mas ela estava estancada no mercado. Eu, como era livreiro, via que tinha uma demanda forte, só que a galera comprava xerox na faculdade porque os livros não eram reimpressos”, conta.

Diante desse cenário, a Autonomia Literária passou a ocupar um espaço deixado pelas grandes editoras, publicando obras relevantes sobre crises globais. “A gente começou a crescer nesse vácuo, fazendo um debate contra tudo aquilo que o olavismo e a extrema-direita pregavam.”

Com a radicalização política, a editora direcionou parte de seu catálogo a obras antifascistas. O primeiro livro publicado tratava da ascensão do Estado Islâmico, do jornalista Patrick Cockburn, e rapidamente se tornou um best-seller no país. “Não tinha essa história bem contada aqui, mas lá fora tinha.”

Desafio nas vendas


Um dos principais desafios do setor editorial é o ciclo de vendas. Para manter equilíbrio financeiro sem abrir mão da linha editorial, a editora Ubu criou um clube do livro, que atualmente conta com cerca de 2 mil assinantes. A diretora editorial e sócia, Florencia Ferrari, explica que livros relevantes para o debate público nem sempre têm grande retorno comercial imediato.

“[Os assinantes] nos dão um cheque em branco para nossa curadoria. E, ao fazer isso, eles nos permitem manter uma editora com um catálogo de alta qualidade, que não abre mão de nenhuma maneira dessa qualidade, e que não precisa ir atrás de títulos que tem como objetivo vender bastante”, diz.

A Ubu já conseguiu conciliar qualidade editorial e boas vendas em publicações de autores como Nego Bispo, Vladimir Safatle, Hanna Limulja, Malcom Ferdinand e Françoise Vergès. “Ter o clube é uma maneira de garantir um catálogo consistente, de alta qualidade e uma equação [financeira] saudável.”



Para lançar um livro, as editoras precisam investir em direitos autorais, tradução, revisão, projeto gráfico, capa e impressão. A distribuição costuma ocorrer em regime de consignação, no qual o pagamento é feito conforme a venda dos exemplares, podendo levar até 90 dias ou mais.

“O dinheiro volta para as editoras de um jeito muito pingado e lento em relação ao tempo inicial”, relata Florencia. Em alguns casos, o retorno do investimento pode levar anos, situação que afeta especialmente editoras independentes, cujo catálogo é majoritariamente de “fundo”, e não de best-sellers.

Estratégias e incentivos


O diretor-presidente da Associação Quatro Cinco Um, Paulo Werneck, afirma que, diante das adversidades, editoras independentes precisam adotar “estratégias de guerrilha”. Para ele, esses empreendimentos são um patrimônio cultural, mas enfrentam riscos com a concentração do mercado.

“As editoras independentes realmente são notáveis, são um patrimônio cultural que está florescendo no Brasil, mas que está muito ameaçado por esse jogo de concentração”, avalia. Segundo Werneck, os editores precisam ser ágeis, criar novos canais de venda, manter contato direto com o público e promover feiras literárias.

A venda direta pelos sites das editoras e o uso do modelo de impressão sob demanda (Print on Demand – POD) também passaram a ser alternativas para reduzir custos, eliminando estoques e grandes tiragens iniciais.

Werneck destaca ainda o papel das livrarias de rua na formação de polos culturais nos bairros e defende incentivos fiscais, como ocorre em cidades europeias. Dados da CBL mostram que, entre os 1.830 municípios brasileiros com livrarias, o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC) é 3% superior à média nacional.

“Elas transformam o bairro, tudo o que está ao redor. É dos poucos comércios que têm esse efeito”, afirma. Entre os incentivos citados estão isenção de IPTU, acesso a crédito e apoio público a eventos culturais.

Florencia Ferrari reforça que políticas públicas de aquisição de livros para bibliotecas e escolas têm impacto direto na cultura, educação e qualidade de vida, além de movimentar a economia. O setor envolve profissionais como ilustradores, designers, fotógrafos, revisores e tradutores.

Cauê Seignemartin Ameni defende benefícios fiscais para livrarias, consideradas essenciais para ampliar o alcance das obras. Ele reconhece os riscos do modelo de consignação, mas avalia que a circulação em livrarias é fundamental para sair dos nichos.

“Se só trabalhar na bolha, não se faz a disputa. Tem que jogar nas livrarias, vai ter que correr o risco do calote, mas vai fazer o seu livro circular em grande escala.”

*Com informações da Agência Brasil