Economia

Motoristas de aplicativos sentem os reflexos da alta dos preços da gasolina

Eles têm desenvolvido estratégias para manter a margem de lucro na capital alagoana

Por Vinícius Rocha 11/03/2022 18h06 - Atualizado em 11/03/2022 20h08
Motoristas de aplicativos sentem os reflexos da alta dos preços da gasolina
Reprodução - Foto: Foto Ilustrativa

“Temos que trabalhar o dobro para ganhar a metade”. A frase é do motorista por aplicativo Sandro João Soares. Morador da parte alta de Maceió, ele é um dos trabalhadores que sofre com os efeitos do aumento no preço dos combustíveis. A mais recente alta se deu nesta sexta-feira (11), onde, de acordo com a Petrobras, houve uma variação de R$ 0,44 média por litro.

Nas bombas, porém, a história é outra. A gasolina em Maceió já ultrapassa o valor de R$ 8,00/L e, segundo apurado pelo Jornal de Alagoas, a variação entre o posto mais barato e o mais caro é de R$ 1,71, sendo o mais barato R$ 6,389 e o mais caro R$ 8,099.

Os motoristas de app são uma das primeiras categorias de trabalhadores a sentirem os reflexos da alta de preços. Para continuar a rodar e manter o lucro, eles estão preferindo abastecer com etanol, ao invés da gasolina comum.

Motorista por aplicativo há três anos, Sandro Soares mora no bairro do Petrópolis. Com carro próprio, ele sai pra trabalhar às cinco horas da manhã, com uma meta estabelecida de lucro, mas, para conseguir atingi-la às 14h, horário em que retorna para casa, a estratégia foi migrar para o álcool.

“Não existe um aumento desse jeito. Antigamente a gasolina era R$ 3,50, agora está mais de R$7, do jeito que tá essa situação de pandemia. Não ajuda ninguém. Eu abastecia com gasolina porque é melhor para o carro e rende mais, mas agora só abasteço com álcool e tento rodar devagarinho para não queimar o combustível rapidamente”, conta, detalhando o seu método para preservar o combustível. “Nós passamos o dia na rua, eu ainda gasto com almoço e café. Com a manutenção do carro e outros gastos, acaba que eu tenho que trabalhar o dobro, pra ganhar a metade”, completa.

A situação é parecida para José Lucas Almeida. Motorista de aplicativo há quatro anos, ele roda com carro alugado e também utiliza o álcool para abastecer. Com o aumento no preço dos combustíveis, seu futuro é incerto e ele não sabe se vai conseguir continuar trabalhando.

“Se ficar muito pesado vou ter que entregar o carro”, lamenta.

Álcool: confira postos de Maceió onde pode-se encontrar etanol mais em conta


Antes, ele contou que irá fechar mais uma semana de trabalho para testar e poder analisar sua margem de lucro. José Lucas gasta R$ 1.600,00 com o aluguel do carro e diz que o aplicativo em que trabalha define os valores de R$ 0,99 por km, e 11 a 12 centavos por minuto de corrida, com taxa base de R$ 1,87 para o motorista.

“É muito pouco para o tamanho do lucro das empresas, fora que não há garantia trabalhista e o motorista sofre muitos riscos na rua. Não sei como vai ser daqui pra frente”, conclui.

Preço do etanol


Com a disparada no preço da gasolina o álcool tem sido uma opção viável para motoristas de Alagoas. O etanol pode ser encontrado na capital alagoana por até R$ 4,569, uma diferença de quase dois reais por litro.

A explicação pode ser encontrada na venda direta de etanol das usinas de cana de açúcar de Alagoas, estado que é um dos principais produtores dessa matéria prima no país, para os postos de combustível do estado, como noticiado em primeira mão pelo Jornal de Alagoas.

Categoria protesta


No último dia 7, os motoristas por aplicativo de Maceió, realizaram um protesto contra a alta no preço dos combustíveis e derivados . A manifestação reuniu trabalhadores de Maceió e do interior. Eles disseram os aumentos tornam a atividade inviável.

A concentração do protesto aconteceu na Praia da Avenida e eles percorreram algumas das vias principais do Centro de Maceió. No final da manhã, os motoristas bloquearam a Rua do Sol.

Caminhoneiros também reclamam


Para Wanderei Alves, caminhoneiro conhecido como Dedeco, um dos principais líderes da greve da categoria em 2018, o Brasil tem que parar em protesto contra o novo aumento no preço dos combustíveis, anunciado pela Petrobras, nesta quinta-feira (10).

Em Mato Grosso, onde parou o caminhão que está dirigindo para abastecer e seguir viagem até Presidente Prudente, em São Paulo, ele afirma que pagou R$ 6,8 o litro. “E agora vai para mais de R$ 8”, protestou.

“Eles já tiveram um lucro absurdo, doentio com os aumentos mais recentes, e estão ficando milionários às custas da tragédia de todos nós. Só quem está feliz hoje no país são os investidores da Petrobras”, disse.

Caminhoneiros e transportadoras são os primeiros a sentir o baque, afirma Dedeco, mas logo os preços são repassados e chegam aos supermercados e em todos os produtos, “penalizando a todos”.