Cooperativismo
Fortalecer a cultura é o novo desafio do cooperativismo brasileiro
Pesquisa aponta risco de afastamento dos valores cooperativistas e mobiliza o setor em torno da educação e da formação de lideranças
Em 2026, o cooperativismo brasileiro decidiu enfrentar de forma mais estruturada um desafio que já vinha sendo apontado como central para o futuro do setor: o fortalecimento da cultura cooperativista. Pesquisa realizada em 2023 com lideranças do movimento revelou que 56% dos dirigentes de cooperativas e Organizações Estaduais temem um distanciamento das instituições em relação àquilo que diferencia o modelo cooperativo — seus valores e princípios.
O diagnóstico levou o 15º Congresso Brasileiro do Cooperativismo (CBC) a incorporar a cultura cooperativista entre suas diretrizes estratégicas. Duas frentes foram definidas como prioritárias: ampliar a presença do cooperativismo na educação formal, em todos os níveis, por meio de parcerias com escolas, universidades e órgãos educacionais; e investir na formação de lideranças capazes de atuar como promotoras e multiplicadoras desses valores dentro das organizações e no movimento como um todo.
Dando continuidade a esse processo, o Sistema OCB realiza atualmente uma pesquisa nacional para aprofundar o entendimento sobre o tema, aberta à participação voluntária de cooperados e lideranças. Paralelamente, a revista Saber Cooperar lança uma série especial dedicada aos sete princípios do cooperativismo, começando pelo primeiro deles: a Adesão Livre e Voluntária.
De acordo com a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), esse princípio estabelece que qualquer pessoa pode se associar a uma cooperativa, independentemente de raça, religião, classe social ou gênero, desde que esteja disposta a assumir as responsabilidades inerentes à condição de cooperado. Em termos práticos, ninguém pode ser obrigado a ingressar em uma cooperativa — nem impedido de fazê-lo por critérios discriminatórios.
“O objetivo central é assegurar que a cooperativa seja uma organização de pessoas, e não um clube fechado ou instrumento de apropriação privada”, explica o professor Alair Freitas, coordenador do Centro de Referência em Empreendedorismo e Cooperativismo para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Segundo o pesquisador, a adesão livre e voluntária funciona como um “filtro institucional”: evita tanto o fechamento corporativo quanto a entrada oportunista de quem busca apenas benefícios imediatos. Por isso, antes da admissão, é fundamental que os interessados conheçam claramente seus direitos, deveres e corresponsabilidades — entre eles, participar das decisões, contribuir para os resultados coletivos e respeitar os valores cooperativistas.
Raízes históricas
Os princípios do cooperativismo remontam à fundação da Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale, criada em 1844, na Inglaterra, em meio às duras condições impostas pela Revolução Industrial. A livre admissão surgiu como contraponto às associações excludentes da época, muitas delas restritas por classe, profissão ou origem.
“Ao afirmar que qualquer pessoa poderia aderir, desde que aceitasse regras comuns e participasse de forma responsável, o cooperativismo se posicionou como alternativa democrática às estruturas econômicas excludentes do capitalismo industrial nascente”, observa Freitas.
O princípio delimita a natureza da cooperativa como associação de pessoas, e não de capitais. Associar-se é um ato voluntário, baseado na união espontânea para promover desenvolvimento econômico e social mútuo.
O princípio na prática
No Brasil, a adesão livre e voluntária é adotada por todas as cooperativas. A C.Vale, do Paraná, é um exemplo de aplicação concreta dessa diretriz. “Esse princípio é o pilar do nosso modelo de negócios, porque dele dependem todos os demais”, afirma Mirna Klein Furio, gerente da Assessoria de Qualidade e Comunicação da cooperativa.
Segundo ela, as portas estão abertas a qualquer produtor interessado em cooperar para crescer, independentemente do porte da propriedade ou da renda. “Todos têm o mesmo direito de se associar e participar”, ressalta.
Para fortalecer essa base, a cooperativa investe em formação contínua sobre os sete princípios, além de promover dias de campo, seminários, cursos e ações de conscientização ambiental. A estratégia inclui ainda programas voltados às novas gerações, como o Cooperjúnior e o Cooperjovem, que estimulam a sucessão familiar e o entendimento de que o cooperativismo é sempre uma escolha — nunca uma imposição.
Mirna destaca que os princípios garantem padrões éticos comuns às cooperativas no Brasil e no mundo, funcionando como referência de identidade. Para o professor Alair Freitas, eles também são instrumentos práticos de pertencimento e participação, essenciais para reduzir assimetrias internas e fortalecer transparência e sustentabilidade.
“Cooperativas que desejam fortalecer sua cultura precisam tratar a educação como estratégia permanente, não episódica. É preciso conectar princípios, gestão, mercado e a realidade dos cooperados no dia a dia”, conclui o pesquisador.
*Com informações da Ascom OCB


