Cooperativismo
Cooperativas são chave para transformar resíduos em ativos econômicos
País recicla apenas 4,5% dos resíduos gerados, enquanto cooperativas ampliam capacidade de triagem e comercialização.
O Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024 — o equivalente a 384 quilos por habitante ao ano ou 1,241 kg por dia. Os dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025 mostram que, embora 76,4 milhões de toneladas tenham sido destinadas a aterros sanitários, 40,3% dos resíduos ainda seguiram para lixões ou locais inadequados, mantendo um passivo ambiental expressivo.
Quando o recorte é a reciclagem, o desafio se torna mais evidente. Apenas 8,7% dos resíduos secos foram encaminhados à reciclagem no último ano. Considerando o total gerado, a taxa efetiva de reaproveitamento gira em torno de 4,5%, distante da meta de 20% prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos. A coleta seletiva alcança cerca de 38% dos municípios brasileiros, mas com forte desigualdade regional em infraestrutura, eficiência operacional e capacidade de triagem.
O cenário revela um paradoxo: houve avanço na destinação ambientalmente adequada, mas a economia circular ainda não ganhou escala suficiente para alterar estruturalmente o modelo de produção e consumo. A circularidade depende de um fluxo contínuo entre produção, descarte e reinserção de materiais na cadeia produtiva — processo que exige coordenação sistêmica e previsibilidade regulatória.
Para Thais Fagury, presidente executiva da Associação Brasileira de Embalagem de Aço, o avanço passa por uma mudança de mentalidade coletiva aliada à infraestrutura adequada. “Não basta que a indústria invista em tecnologias e soluções de reaproveitamento. É preciso que o consumidor compreenda seu papel nesse ciclo, adotando práticas de consumo consciente e destinando corretamente os resíduos”, afirma.
Segundo ela, cadeias com maior desempenho em reciclagem são aquelas em que há articulação entre indústria, cooperativas, poder público e cidadãos. “Quando há engajamento e integração entre esses atores, o processo circular funciona com mais rapidez e transparência”, destaca. Mesmo materiais com alto potencial de reaproveitamento dependem de coleta estruturada, triagem eficiente e mercado ativo para fechar o ciclo.
Engajamento sem escala
Nos últimos anos, metas ESG se disseminaram, campanhas de conscientização se multiplicaram e projetos de coleta seletiva ganharam visibilidade. Ainda assim, a economia circular enfrenta dificuldade para sair do campo experimental e atingir escala nacional.
A falta de padronização de dados, rastreabilidade e métricas consolidadas limita a capacidade de empresas e municípios de comprovar impacto e garantir conformidade ambiental. Para Claudia Pires, CEO da SO+MA, engajamento é apenas o primeiro passo. “Engajar é o começo. Escalar impacto exige método, dados e tecnologia. Hoje, tanto empresas quanto órgãos públicos precisam de transparência e visibilidade do que está acontecendo na prática”, afirma.
Sem governança estruturada e indicadores confiáveis, projetos tendem a se restringir a experiências locais e perder consistência ao longo do tempo. A circularidade, argumenta Pires, precisa conectar consumidor final, cooperativas, poder público e indústria em um sistema mensurável e replicável.
Cooperativas sustentam a base do sistema
Na ponta da cadeia, as cooperativas de catadores desempenham papel decisivo. Elas estruturam etapas críticas como triagem, classificação e comercialização dos materiais recicláveis, garantindo o retorno econômico ao ciclo produtivo.
Em 2024, 4,6 milhões de toneladas de resíduos secos foram coletadas de maneira informal e encaminhadas diretamente à reciclagem, evidenciando o peso da base da cadeia. No mesmo período, o número de catadores organizados formalmente em cooperativas cresceu 15%, ampliando a capacidade operacional da coleta seletiva.
Para fortalecer essa etapa, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social executa o programa Tudo na Circularidade, que destina ao menos R$ 40 milhões em recursos não reembolsáveis para redes de cooperativas e associações. A iniciativa busca ampliar capacidade produtiva, qualificação técnica e acesso ao mercado de créditos de logística reversa — mecanismo que remunera a restituição de materiais ao ciclo produtivo.
Gargalos operacionais persistem
Apesar do envio de 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos à reciclagem em 2024, apenas 52% desse volume foi efetivamente recuperado. O restante seguiu como rejeito para disposição final, reflexo de contaminação de materiais, falhas na triagem e limitações operacionais.
No campo da destinação final, quase 3 mil lixões ainda permanecem ativos no país, apesar da proibição legal. Com taxa efetiva de reciclagem em torno de 4,5% e cobertura limitada de coleta seletiva, o Brasil permanece distante de consolidar um modelo circular robusto.
Especialistas apontam que o avanço depende do fortalecimento da base produtiva da reciclagem, da ampliação de instrumentos de logística reversa e da continuidade de programas estruturantes. Sem integração entre política pública, mercado e infraestrutura, a circularidade tende a permanecer fragmentada — e incapaz de responder à escala do desafio ambiental brasileiro.
*Com informações do MundoCoop


