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Pesquisa identifica horário do cochilo associado a menor peso corporal
Estudo com participação da Ufal reuniu dados de adultos brasileiros e espanhóis e analisou a relação entre IMC, duração, horário e regularidade das sestas
Tirar um cochilo durante o dia é um hábito comum para muitos brasileiros. Mas, além de saber se as pessoas dormem durante o dia, alguns pesquisadores decidiram investigar outros aspectos dessa prática: quanto tempo dura a sesta, em que momento ela acontece, se o padrão muda entre a semana e o fim de semana e qual a relação disso com o peso corporal de uma pessoa.
O estudo, publicado no Journal of Translational Medicine, foi realizado em colaboração com pesquisadores da Universidade de Murcia, na Espanha, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e tem como primeira autora a professora Giovana Longo-Silva, da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Alagoas (Fanut/Ufal). A pesquisadora coordena a Pesquisa Sonar-Brasil e é líder do Grupo de Pesquisa em Cronobiologia, Nutrição e Saúde (Cronus) da Universidade.
Os dados brasileiros vieram da Sonar-Brasil, levantamento nacional realizado por meio de questionários on-line com 5.260 adultos de todas as unidades federativas. A pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), investiga comportamentos relacionados ao sono, à alimentação e aos ritmos biológicos.
Para o estudo publicado na revista científica, foram incluídos apenas participantes entre 18 e 65 anos, que não trabalhavam no período noturno e que relataram cochilar habitualmente em dias de semana e/ou nos finais de semana.
A amostra final foi composta por 496 cochiladores espanhóis, correspondendo a aproximadamente 14% dos participantes do estudo espanhol, e 3.054 cochiladores brasileiros, correspondendo a 58% dos participantes do Sonar-Brasil. “Esse último dado é especialmente interessante: mais da metade dos adultos brasileiros avaliados relatou o hábito de cochilar”, destaca Giovana.
Momento do cochilo também importa
Os resultados mostram que os menores valores de índice de massa corporal (IMC) foram observados entre as pessoas que cochilavam aproximadamente sete horas e 18 minutos depois de acordar ou uma hora e 15 minutos após o almoço. Os valores mais elevados apareceram entre participantes que costumavam dormir mais cedo, pela manhã ou antes do almoço.
“Não importa apenas se uma pessoa cochila: quanto tempo ela dorme, em que momento do dia e o quanto mantém esse hábito regular também parecem estar relacionados ao peso corporal”, resume a pesquisadora.
Segundo Giovana, o intervalo de cerca de sete horas após o despertar coincide com uma redução natural do estado de alerta no início da tarde. Essa sonolência está relacionada ao ritmo circadiano, regulado pelos relógios biológicos do organismo ao longo das 24 horas.
Em relação ao almoço, o estudo encontrou os menores valores de IMC quando o cochilo acontecia algum tempo depois da refeição, e não imediatamente após comer. Os pesquisadores consideram que esse intervalo pode favorecer a digestão e o metabolismo, mas ressaltam que o trabalho não permite determinar o mecanismo responsável pela associação.
Duração e regularidade
A duração das sestas também esteve relacionada ao peso corporal. “Quanto maior a duração do cochilo, maior o peso corporal”, afirma Giovana. Na amostra analisada, os menores valores de IMC apareceram entre aqueles que tiravam cochilos curtos.
Segundo os dados da pesquisa cochilos prolongados, “especialmente acima de 30 a 60 minutos, têm sido associados a um perfil de saúde menos favorável, incluindo maior ocorrência de obesidade, síndrome metabólica, diabetes e doenças cardiovasculares”.
Outro resultado envolveu a mudança de hábitos nos dias livres. Variações maiores na duração das sestas entre os dias de semana e os finais de semana estiveram associadas a valores mais elevados de IMC.
“Nosso estudo indica que, assim como já se sabe sobre o sono noturno, algo semelhante pode acontecer com os cochilos: grandes variações na duração e no horário entre a semana e o fim de semana podem contribuir para um maior desalinhamento dos nossos ritmos biológicos”, explica a professora.
Essa irregularidade se aproxima de fenômenos já estudados pela cronobiologia, como o jet lag social, provocado por mudanças nos horários de dormir e acordar, e o jet lag alimentar, relacionado à alteração frequente dos horários das refeições.
“Isso reforça a importância da regularidade não apenas do sono noturno e das refeições, mas também do sono durante o dia” enfatiza Giovana.
Os autores reforçam que os resultados indicam associação, e não uma relação de causa e efeito. “São necessários estudos longitudinais e de intervenção para esclarecer o papel causal do horário do cochilo na saúde metabólica”, registram os pesquisadores no artigo. O trabalho teve delineamento transversal e utilizou informações autorrelatadas na amostra brasileira, incluindo peso e altura.
Cooperação internacional
A pesquisa foi desenvolvida durante o pós-doutorado de Giovana Longo-Silva na Universidade de Murcia, em 2025, junto ao grupo coordenado pela professora Marta Garaulet, referência internacional em crononutrição e obesidade. Também participaram do artigo María Rodríguez-Martín, Diego Salmerón e Frank Scheer.
O trabalho integra o projeto Crononutrição, Sestas e Obesidade: um estudo comparativo entre adultos espanhóis e brasileiros, coordenado por Giovana e financiado pelo CNPq por meio da chamada para projetos de cooperação internacional.
“A parceria tem permitido integrar dados de duas populações com contextos culturais bastante diferentes, além de fortalecer a internacionalização da pesquisa desenvolvida na Ufal, com intercâmbio de pesquisadores, formação científica e produção conjunta de conhecimento”, ressalta a professora.
A cooperação entre o Cronus e a Universidade de Murcia já resultou em outras publicações e mantém novos estudos em desenvolvimento sobre sono, ritmos biológicos e alimentação nas populações brasileira e espanhola.
O artigo Optimal nap timing and body mass index: beyond duration (em tradução livre: Horário ideal do cochilo e índice de massa corporal: além da duração) está disponível no link do Journal of Translational Medicine.
