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Tesouro de moedas revela fuga de guarnição romana
Achado na Croácia indica que soldados enterraram dinheiro durante ataque na fronteira do Danúbio
Um tesouro composto por 302 moedas romanas, encontrado no leste da Croácia, pode lançar luz sobre os momentos finais de uma pequena guarnição encarregada de vigiar o Limes do Danúbio no século IV d.C. A descoberta sugere que o depósito militar foi enterrado às pressas durante um ataque e jamais recuperado.
O achado ocorreu próximo à vila de Mohovo, durante pesquisas do Instituto de Arqueologia de Zagreb, voltadas à antiga infraestrutura defensiva da região de Vukovar-Srijem. As moedas estavam concentradas em uma área de apenas um metro quadrado, no local onde funcionava uma torre de vigia romana. A maioria dos exemplares data do século IV, período em que o Danúbio era uma das fronteiras mais vigiadas do Império Romano.
A defesa do Limes não dependia apenas de grandes fortalezas, mas também de pequenos postos, rotas de patrulha e pontos de observação estratégicos, que garantiam vigilância constante da região. Mohovo localizava-se entre os acampamentos romanos de Ilok e Sotin, responsáveis pelo controle do território. Entre eles, torres menores monitoravam travessias e ravinas que levavam ao rio, permitindo identificar movimentos suspeitos e transmitir alertas rapidamente ao longo da linha defensiva.
No sítio arqueológico, foram encontrados vestígios de uma torre de madeira cercada por fossos em forma de V, típica das estruturas elevadas sobre postes. Esse sistema simples, porém eficiente, criava uma cadeia visual de vigilância ao longo do Danúbio. Foi em uma dessas valas que os arqueólogos localizaram a concentração incomum de moedas.
A descoberta teve início quando um técnico avistou uma moeda isolada, logo seguida de outras, até que a quantidade indicou tratar-se de um depósito intencional. Segundo Marko Dizdar, diretor do Instituto de Arqueologia, o dinheiro provavelmente pertencia aos soldados da torre, enterrado às pressas durante um ataque ou situação de emergência — um tesouro nunca recuperado. As moedas, assim, ganham dimensão humana: podem representar uma folha de pagamento interrompida por medo, violência ou retirada súbita.
Análises preliminares revelam que muitas moedas foram cunhadas sob o imperador Valentiniano I, natural de Cibalae, atual Vinkovci. Seu governo foi marcado pelo reforço das fronteiras do Império, especialmente no Reno e no Danúbio. O achado se insere nesse contexto de defesa tardia, quando Roma passou a depender cada vez mais de pequenos postos disciplinados para manter o controle territorial.
Além das moedas, o sítio de Mohovo revelou objetos do cotidiano romano, como fíbulas e um anzol de pesca, reforçando a ideia de que os soldados não apenas vigiavam, mas também viviam à beira do rio.
Pesquisadores acreditam que a região possa abrigar outros sítios militares ainda inexplorados. Após conservação e análise, o tesouro deverá integrar um acervo museológico, oferecendo um raro vislumbre dos últimos momentos de uma guarnição romana na fronteira do Danúbio.


