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Matéria escura em decaimento pode explicar buracos negros gigantes
Estudo sugere que energia liberada acelerou formação precoce observada pelo James Webb no Universo primordial
Pesquisadores da Universidade da Califórnia propõem que a energia liberada pelo possível decaimento da matéria escura pode explicar o surgimento precoce dos buracos negros supermassivos, detectados pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST) apenas 500 milhões de anos após o Big Bang.
A descoberta de buracos negros gigantescos pelo JWST no Universo primordial reacendeu um antigo enigma cosmológico: como esses objetos atingiram tamanha massa em tão pouco tempo, quando o cosmos ainda era jovem? Modelos tradicionais previam que esse crescimento levaria pelo menos um bilhão de anos, criando uma lacuna entre teoria e observação.
Desde 2022, o JWST vem revelando buracos negros supermassivos em períodos muito anteriores ao esperado, pressionando a comunidade científica a buscar novas explicações para sua formação. A hipótese recente sugere que a matéria escura — responsável por cerca de 85% da matéria do Universo — pode ter sido crucial nesse processo.

De acordo com uma equipe da Universidade da Califórnia, Riverside, a energia liberada pelo decaimento da matéria escura teria impactado profundamente as primeiras galáxias, criando condições propícias para o surgimento desses titãs cósmicos de forma precoce. Essa energia extra poderia acelerar o colapso de nuvens de gás, permitindo a formação direta de buracos negros iniciais.
O colapso direto já era considerado um mecanismo possível, no qual vastas nuvens de gás e poeira se comprimem sem passar pela etapa intermediária de uma estrela massiva. No entanto, esse processo exigiria fontes de energia externas, como radiação de estrelas próximas — algo raro demais para explicar a abundância observada pelo JWST.
A hipótese da matéria escura em decaimento surge como alternativa: mesmo uma quantidade ínfima de energia liberada por partículas instáveis poderia "supercarregar" essas nuvens primordiais, desencadeando o colapso. Para os pesquisadores, essa energia mínima seria suficiente para alterar a química do hidrogênio primordial.
Segundo o portal Space, os físicos Yash Aggarwal e Flip Tanedo argumentam que as primeiras galáxias eram extremamente sensíveis a qualquer injeção energética, funcionando quase como detectores naturais de matéria escura. Assim, os buracos negros supermassivos observados hoje poderiam ser a assinatura indireta desse processo.
O estudo também propõe uma faixa de massa — entre 24 e 27 elétron-volts — para as partículas de matéria escura capazes de produzir esse efeito. Essa estimativa resulta da combinação de conhecimentos em física de partículas, cosmologia e astrofísica, permitindo formular uma teoria consistente para o fenômeno.
Para os autores, o cenário adequado torna muito mais provável a formação de buracos negros por colapso direto nos primórdios do Universo. Com o JWST revelando cada vez mais objetos desse tipo, a hipótese da matéria escura em decaimento pode ser a peça que faltava para aproximar teoria e observação.


