Ciência, tecnologia e inovação
Pesquisa da Ufal estuda resposta genética ao tratamento da esquistossomose
Estudo investiga por que pacientes reagem de forma diferente ao Praziquantel e pode melhorar tratamento no SUS
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) busca entender por que um mesmo medicamento pode ter efeitos distintos em pessoas que vivem na mesma comunidade e enfrentam a mesma doença. O estudo analisa como fatores genéticos influenciam a resposta ao Praziquantel, principal remédio utilizado no tratamento da esquistossomose no Brasil.
A esquistossomose é uma doença parasitária crônica que ainda representa um desafio relevante para a saúde pública, especialmente em regiões com vulnerabilidade social e acesso limitado ao saneamento básico. Mesmo com medidas de controle, a doença segue presente em áreas endêmicas e afeta populações expostas a ambientes de risco.
Embora o Praziquantel seja amplamente utilizado por sua eficácia e segurança, pesquisas já indicam que a resposta ao medicamento pode variar entre os pacientes. Em alguns casos, há diferenças na efetividade do tratamento e até no surgimento de efeitos colaterais.
É nesse cenário que se insere o projeto “Farmacogenômica da resposta ao Praziquantel e o impacto no tratamento da esquistossomose na população brasileira miscigenada”. A iniciativa investiga como variações genéticas, principalmente em genes ligados à metabolização de medicamentos, podem interferir na resposta do organismo ao tratamento.
Coordenado pelos pesquisadores Vinicius de Albuquerque Sortica e Müller Ribeiro Andrade, o estudo conta com a parceria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa tem financiamento do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Atualmente, o projeto está na fase de coleta de amostras biológicas em municípios de Alagoas, incluindo áreas urbanas e rurais. A iniciativa é realizada em conjunto com secretarias municipais de saúde e envolve diretamente a população. Além dos dados genéticos, também são analisadas informações clínicas e epidemiológicas, permitindo avaliar adesão ao tratamento, eficácia e possíveis reações adversas.
Segundo os pesquisadores, essa abordagem amplia a compreensão da esquistossomose ao considerar não apenas o parasita, mas também as características biológicas e sociais dos pacientes.
O projeto também inclui ações de educação em saúde e extensão, aproximando a universidade das comunidades. Durante atividades realizadas em eventos e territórios atendidos, a equipe promove orientações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento da doença, além de discutir o papel da genética na resposta a medicamentos.
Para o professor Müller Ribeiro Andrade, o contato com a população fortalece o papel social da universidade. “Essas ações fortalecem o diálogo entre ciência e sociedade, promovendo acesso à informação qualificada e incentivando a participação social”, afirmou.
A relevância da pesquisa já foi reconhecida nacionalmente. O grupo recebeu o prêmio de melhor trabalho científico no 17º Simpósio Internacional sobre Esquistossomose, realizado em Salvador, pelo estudo sobre farmacogenética e o uso do Praziquantel em Alagoas.
Os resultados do projeto podem contribuir, no futuro, para aprimorar os protocolos de tratamento adotados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), levando em conta a diversidade genética da população brasileira. A expectativa é tornar as terapias mais eficazes, reduzir falhas no tratamento e melhorar o acompanhamento dos pacientes.
“Essa abordagem pode tornar o tratamento mais eficaz, reduzir falhas terapêuticas e contribuir de forma estratégica para o controle e a eliminação da esquistossomose no país, alinhando-se às metas globais de saúde até 2030”, destacou o pesquisador.


