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Estudo da Ufal aponta que pandemia elevou mortes por álcool e drogas

Pesquisa registrou uma alta de até 26% nos óbitos durnate a Covid-19 alerta para impacto duradouro na saúde mental

Por Redação com Ufal 27/02/2026 14h02
Estudo da Ufal aponta que pandemia elevou mortes por álcool e drogas
Pandemia causou aumento de mortes por drogas e álcool no Brasil - Foto: Reprodução

Um levantamento nacional revelou que, além das mortes diretamente causadas pelo coronavírus, o Brasil enfrentou um crescimento contínuo e expressivo nos óbitos associados ao consumo de álcool e outras drogas após o início da pandemia de covid-19.

A pesquisa, conduzida pelo professor Márcio Bezerra, do Complexo de Ciências Médicas e de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Campus Arapiraca, analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) entre 2015 e 2022. O estudo identificou um aumento significativo das mortes relacionadas a substâncias psicoativas nos três primeiros anos da crise sanitária.

De acordo com os dados, houve crescimento de 18,3% nos óbitos em 2020, 22,4% em 2021 e 26% em 2022, em comparação ao número esperado para o período. Apenas nesses três anos, foram registradas mais de 25,9 mil mortes acima da estimativa projetada. No total, o país contabilizou 178 mil mortes ligadas ao uso de drogas e álcool entre 2015 e 2022 — sendo mais de 80% associadas ao consumo de bebidas alcoólicas, apontadas como o principal fator do problema no Brasil.

Os pesquisadores classificam o fenômeno como uma “epidemia colateral” da pandemia, impulsionada pelo isolamento social, agravamento da crise econômica e interrupções em serviços de saúde mental.

“O estudo evidencia um aumento alarmante e sem precedentes nas taxas de mortalidade por álcool e drogas em todos os estados brasileiros durante a pandemia. As vulnerabilidades pré-existentes foram intensificadas, reforçando a urgência de políticas públicas de saúde mental e redução de danos capazes de resistir a períodos de crise sanitária”, destacou o professor Márcio.

Os resultados foram publicados na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, uma das mais respeitadas da área médica. Segundo o pesquisador, a publicação representa o reconhecimento internacional da qualidade científica produzida pela universidade.

Regiões mais afetadas


A análise regional mostrou que Nordeste, Sudeste e Sul registraram os maiores aumentos proporcionais nas mortes. Entre os estados, casos mais extremos foram observados em Pernambuco, Amapá e Tocantins, que apresentaram elevações superiores a 50% em determinados anos.

Antes de 2020, algumas regiões apresentavam estabilidade ou até redução nas taxas. O cenário mudou após março daquele ano, quando a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia de covid-19, marcando uma inflexão nas curvas de mortalidade.

O estudo utilizou modelos estatísticos avançados, como regressão Joinpoint, séries temporais interrompidas (ARIMA) e mapas coropléticos para análise espacial, abrangendo todo o território nacional.

Impacto entre jovens e mulheres


A pesquisa também apontou diferenças relevantes por sexo e faixa etária. Embora os homens concentrem o maior número absoluto de mortes, o crescimento proporcional foi mais intenso entre as mulheres, com média anual de aumento de 4,6%, frente a 3,6% entre os homens.

Entre as faixas etárias, os maiores avanços ocorreram entre jovens de 20 a 39 anos (AAPC de 2%) e pessoas com 60 anos ou mais (AAPC de 1,8%). As análises confirmaram mudança estatisticamente significativa na tendência de óbitos a partir de março de 2020.

Coautora do estudo, a professora de Epidemiologia Maria Amélia Gurgel ressaltou a importância do uso de técnicas estatísticas robustas na análise de dados públicos do Sistema Único de Saúde (SUS), destacando o potencial dessas bases para orientar políticas públicas.

Limitações e alerta para políticas públicas


Entre as limitações apontadas estão possíveis subnotificações, atrasos nos registros e imprecisões na codificação das causas de morte no SIM, além da ausência de informações detalhadas sobre gênero e raça/etnia.

Mesmo com essas restrições, os autores consideram as evidências consistentes e defendem a adoção urgente de estratégias estruturadas de prevenção, cuidado em saúde mental e redução de danos para evitar impactos semelhantes em futuras crises sanitárias.

Também assinam o estudo pesquisadores de diferentes instituições, sob coordenação do professor Márcio Bezerra. Para ele, a publicação reforça o papel da universidade pública brasileira na produção de conhecimento científico de excelência.

“Ao liderarmos um estudo dessa magnitude, demonstramos que a universidade pública de qualidade produz evidências capazes de salvar vidas e orientar decisões governamentais em nível nacional e internacional”, concluiu o pesquisador.