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Caverna no Novo México expande busca por vida fora da Terra

Micróbios fazem fotossíntese no escuro em caverna; descoberta no Parque Nacional de Carlsbad revela uso de luz infravermelha

Por Redação com BBC Brasil 26/02/2026 17h05
Caverna no Novo México expande busca por vida fora da Terra
Pesquisadores encontraram espessos biofilmes verdes dentro das cavernas, mesmo na ausência de luz real - Foto: Lars Behrendt

Uma descoberta em cavernas no sul do Novo México revelou que microrganismos conseguem produzir energia a partir da luz mesmo em ambientes sem iluminação visível. O achado foi feito no Parque Nacional das Cavernas de Carlsbad, área reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

A bióloga Hazel Barton, professora da Universidade do Alabama, relatou ter encontrado uma parede de coloração verde intensa em uma área completamente escura da caverna. “Era o verde mais iridescente que você iria ver na vida. E, ainda assim, os micróbios viviam em completa escuridão”, afirmou.

As cavernas, formadas entre quatro e 11 milhões de anos atrás pela ação de ácido sulfúrico sobre rochas calcárias, atraem cerca de 350 mil visitantes por ano. A principal atração é a Caverna de Carlsbad, que possui um salão subterrâneo com aproximadamente 1.220 metros de comprimento e 191 metros de largura.

O microbiólogo Lars Behrendt, da Universidade de Uppsala, na Suécia, participou da expedição que confirmou a descoberta em 2018. Segundo ele, os pesquisadores identificaram cianobactérias — organismos unicelulares capazes de realizar fotossíntese.

O que chamou atenção foi o fato de esses microrganismos utilizarem uma forma especial de clorofila, capaz de captar radiação no espectro do infravermelho próximo, invisível ao olho humano. Diferentemente da clorofila tradicional, que depende da luz visível, as variantes conhecidas como clorofila d e f conseguem transformar esse tipo de radiação em energia.

“A rocha calcária absorve quase toda a luz visível, mas, para o infravermelho próximo, as cavernas funcionam como um salão de espelhos”, explicou Barton. Medições realizadas na parte mais profunda da caverna identificaram níveis de infravermelho próximo até 695 vezes mais concentrados do que na entrada.

Os pesquisadores também encontraram microrganismos com características semelhantes em outras cavernas do parque, inclusive em áreas fora do circuito turístico. “Demonstramos não só que eles vivem lá embaixo, mas que fazem fotossíntese em um ambiente totalmente protegido, onde provavelmente permaneceram intocados por 49 milhões de anos”, afirmou Behrendt.

A descoberta reforça estudos anteriores sobre formas alternativas de obtenção de energia por microrganismos. No século 19, o cientista Sergei Vinogradskii já havia identificado organismos capazes de sobreviver por quimiossíntese, processo que utiliza reações químicas em vez de luz.

Pesquisas mais recentes também identificaram cianobactérias capazes de utilizar infravermelho próximo em ambientes de sombra e até em laboratório, sob iluminação artificial específica.

Para Barton, o resultado amplia as possibilidades de busca por vida fora da Terra, especialmente em planetas orbitando estrelas anãs vermelhas, que emitem predominantemente esse tipo de radiação. A descoberta indica que a vida pode existir em condições consideradas, até então, improváveis.