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Estudo da Ufal aponta impacto das estações do ano nas taxas de suicídio no Brasil

Pesquisa analisou mais de 106 mil casos em municípios brasileiros e aponta relação entre fatores ambientais, latitude e saúde mental

Por Redação com Ufal 10/02/2026 15h03 - Atualizado em 10/02/2026 18h06
Estudo da Ufal aponta impacto das estações do ano nas taxas de suicídio no Brasil
Estudo da Ufal investigou a relação entre as estações do ano e as taxas de suicídio no Brasil - Foto: Reprodução

Um estudo conduzido pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) identificou padrões sazonais consistentes nas taxas de suicídio no Brasil, além de associações relevantes com fatores ambientais e geográficos. A pesquisa avaliou dados de 5.259 municípios, entre 2010 e 2019, totalizando 106.497 registros, com o objetivo de compreender a dinâmica espaço-temporal do fenômeno e seus impactos na saúde pública.

O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Daniel Gomes Coimbra, Jorge Artur Peçanha de Miranda Coelho e pelo orientador Tiago Gomes de Andrade, integrantes do Centro de Medicina Circadiana (CMC/Famed/Ufal). Os resultados foram publicados na revista científica internacional Journal of Affective Disorders, referência mundial na área de saúde mental.

A análise confirmou que as mortes por suicídio seguem um comportamento sazonal, com maior incidência no mês de dezembro, período próximo ao solstício de verão, e menores registros em junho, quando ocorre o solstício de inverno. 

Outro achado relevante foi o aumento das taxas à medida que se avança para o sul do país, indicando uma associação estatisticamente significativa entre latitude e intensidade da sazonalidade.

De acordo com os pesquisadores, esse padrão sugere a influência de fatores biológicos ligados ao relógio circadiano, responsável por regular funções fisiológicas e comportamentais ao longo do dia e do ano.

Desalinhamento entre tempo social e solar

O estudo também apontou o desalinhamento temporal social-solar (dGMT) como um elemento relevante. Municípios localizados mais a oeste dentro de um mesmo fuso horário apresentaram taxas mais elevadas de suicídio, possivelmente devido à discrepância entre o horário social imposto e o ciclo natural de luz solar.

Esse desalinhamento, aliado à sazonalidade observada, reforça a hipótese de que fatores ambientais e cronobiológicos desempenham papel importante no comportamento suicida.

Outras variáveis socioeconômicas foram incluídas na análise, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o grau de urbanização. Os resultados indicaram que municípios mais urbanizados tendem a apresentar menores taxas de suicídio, o que pode estar relacionado ao maior acesso a serviços de saúde mental e redes de apoio.

Para avaliar as relações entre sazonalidade e clima, os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos avançados, como Arima e regressão robusta. Entre os fatores analisados, o fotoperíodo — variação na duração do dia ao longo do ano — apresentou a correlação mais forte com os padrões sazonais do suicídio.

Horário de verão não é fator determinante


A pesquisa também investigou os efeitos do fim do horário de verão no Brasil, em 2019, sobre as taxas de suicídio. Os resultados indicaram que, embora a mudança tenha alterado o timing dos picos sazonais, ela não foi determinante para a existência do padrão sazonal observado ao longo dos anos.

Os achados reforçam que o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial, influenciado por aspectos biológicos, ambientais e sociais. Para os autores, os resultados oferecem subsídios importantes para a formulação de políticas públicas mais estratégicas e preventivas.

“É fundamental reorganizar a prevenção do suicídio considerando a lógica temporal e ambiental, já que o risco varia de forma previsível ao longo do ano e do território”, destacam os pesquisadores. Segundo eles, identificar períodos críticos permite antecipar ações preventivas e alinhar políticas de saúde às populações mais vulneráveis.

Caminhos para novas estratégias terapêuticas


O estudo também aponta a necessidade de novas pesquisas clínicas, especialmente voltadas a fatores ambientais modificáveis. Terapias baseadas na exposição controlada à luz, como a fototerapia — já utilizada no tratamento do Transtorno Afetivo Sazonal — e estratégias de redução da luz artificial, têm potencial terapêutico e merecem maior investigação.

Outras abordagens sugeridas incluem ajustes nos horários escolares e de trabalho, além do uso de estratégias cronobiológicas, como a otimização do horário de medicamentos e o estudo de substâncias como a melatonina, cuja produção varia conforme as estações do ano.

Para os pesquisadores da Ufal, integrar ciência, saúde pública e políticas baseadas em evidências é essencial para avançar na prevenção do suicídio e na promoção da saúde mental no país.


Para mais informações sobre a pesquisa inovadora, basta acessar o link e seguir a página oficial do Centro de Medicina Circadiana da Ufal no Instagram.