Ciência, tecnologia e inovação

Estudo de cientista brasileira mostra que bonobo raciocinava sobre objetos imaginários

Pesquisa liderada por cientista brasileira indica que Kanzi compreendia situações de faz-de-conta, habilidade antes atribuída apenas aos humanos

Por Redação 09/02/2026 09h09 - Atualizado em 09/02/2026 10h10
Estudo de cientista brasileira mostra que bonobo raciocinava sobre objetos imaginários
Kanzi, considerado o símio mais inteligente da história, participou de estudo publicado na revista Science - Foto: Reprodução

A cientista brasileira Amália Bastos, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, demonstrou em um novo estudo que o bonobo Kanzi era capaz de raciocinar sobre objetos imaginários, uma habilidade considerada, até então, exclusiva dos seres humanos.

O trabalho, publicado nesta quinta-feira na revista Science, descreve um experimento conduzido em parceria com o pesquisador Christopher Krupenye, no qual o primata mostrou compreender uma situação de faz-de-conta apresentada pelos cientistas.

O experimento foi realizado poucos meses antes da morte de Kanzi, ocorrida em março de 2025, aos 44 anos. Considerado o símio mais inteligente da história, o bonobo ficou conhecido como o “Einstein do mundo dos macacos” por sua capacidade de comunicação e compreensão simbólica.

Ao longo da vida, Kanzi aprendeu a reconhecer mais de 300 símbolos gráficos e cerca de 3.000 palavras faladas. Criado fora do ambiente selvagem, em centros de conservação e pesquisa na Geórgia e no Iowa, nos Estados Unidos, tornou-se um primata “enculturado” e objeto de dezenas de estudos sobre cognição animal.

Segundo Bastos, o artigo é o primeiro a demonstrar de forma convincente que Kanzi possuía capacidade de abstração para imaginar um objeto ausente a partir de uma simulação apresentada.

Suco de mentirinha


"O experimento é com dois copos vazios e uma jarra vazia. Primeiro a gente usava a jarra para despejar suco imaginário dentro dos copos. Depois, a gente 'derramava' um dos copos, e no fim perguntávamos ao Kanzi indica qual dos copos ele achava que ainda continha o suco imaginário", conta a cientista.

De forma consistente, o bonobo apontava para o copo do qual o suco imaginário não havia sido derramado, indicando que compreendia a situação simulada.

Embora a tarefa seja considerada simples para crianças humanas a partir dos dois anos de idade, o resultado tem implicações relevantes para os estudos sobre a evolução da cognição.

A capacidade de abstração envolvida nesse tipo de brincadeira é vista como um dos pilares da cognição do Homo sapiens. Por isso, pesquisadores buscam entender se essa habilidade surgiu em primatas ancestrais, há milhões de anos, ou se é uma característica mais recente na história evolutiva humana.

No artigo, Bastos e Krupenye afirmam que os resultados ajudam a derrubar a ideia de que o raciocínio sobre situações imaginárias é exclusivo dos humanos.

"Nossos resultados sugerem que a capacidade de formar representações secundárias de objetos imaginários está dentro do potencial cognitivo de, pelo menos, um primata enculturado e provavelmente remonta aos nossos ancestrais evolutivos comuns de 6 milhões a 9 milhões de anos atrás", escreveram os autores.

Convencendo os céticos


Para fortalecer a tese, os pesquisadores realizaram testes adicionais, chamados de “testes de sondagem”, com o objetivo de eliminar explicações alternativas para o comportamento de Kanzi.

"Uma pessoa que não conhece o Kanzi ou que duvide um pouco do experimento poderia pensar que talvez ele estivesse achando que havia suco de verdade no copo, possivelmente por ele ser um símio já idoso e não enxergar direito", explica a cientista. "Nesse caso, ele estaria seguindo nossos gestos, sem realmente entender a situação."

Em um dos testes, Kanzi pôde escolher entre um copo vazio e outro com suco real, optando sempre pelo copo cheio. Em outro, a simulação envolvia potes com uvas imaginárias, e o bonobo também conseguiu identificar corretamente a situação.

"Isso mostra que não é que havia alguma coisa específica com o suco em copos que ele tinha aprendido, mas sim que era uma habilidade um pouco mais flexível, que ele consegue aplicar pelo menos nesses dois contextos", diz Bastos.

Papel da linguagem


Apesar dos resultados, os pesquisadores reconhecem que ainda não é possível afirmar se a capacidade de abstração observada em Kanzi dependeu de seu treinamento linguístico.

O bonobo foi o único participante do experimento, justamente por possuir habilidades de comunicação raras entre primatas. Para alguns especialistas, a linguagem é um pré-requisito para o pensamento abstrato.

"Ambas essas opiniões existem na literatura científica, mas a minha intuição pessoal é que isso é uma coisa que existe também em outros bonobos e outros chimpanzés, sem precisar da linguagem", diz Bastos. "Existem casos relatados de chimpanzés selvagens fazendo coisas que parecem ser 'fingidas'. Já foi documentado comportamento de fêmeas que carregam galhos como se fossem filhotes."

Segundo a cientista, a semelhança com brincadeiras humanas pode indicar que essas habilidades cognitivas têm raízes evolutivas profundas.

"Cada vez que a gente coloca uma barreira dessas, a gente encontra alguma forma de mostrar que talvez os animais estejam mais próximos da gente do que a gente imaginava", afirma.