Agro

Aumento do etanol na gasolina pode aliviar crise da cana em AL

Por Blog Edivaldo Junior 10/07/2026 09h09
Aumento do etanol na gasolina pode aliviar crise da cana em AL
Destilaria da Usina Porto Rico - Foto: Edivaldo Júnior

O aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, pode abrir uma frente importante de alívio para o setor sucroenergético de Alagoas. A medida ainda depende de decisão final do governo federal, mas é tratada pelo setor como uma alternativa para ampliar a demanda por etanol, reduzir a pressão sobre o açúcar e ajudar na recuperação dos preços da cana.

No Brasil, a mudança para o chamado E32 pode gerar demanda adicional próxima de 1 bilhão de litros de etanol anidro por ano, segundo estimativas atribuídas à Unica. Também pode reduzir a necessidade de importação de gasolina em 500 milhões de litros, em um momento de incerteza no mercado internacional de petróleo.

Para Alagoas, o impacto direto no consumo local é menor, mas não desprezível. Dados da ANP mostram que o Estado consumiu 239,3 milhões de litros de gasolina C de janeiro a maio de 2026. Com a mistura atual de 30%, esse volume embute cerca de 71,8 milhões de litros de etanol anidro. Se a mistura subir para 32%, a demanda passaria para 76,6 milhões de litros. Na prática, seriam 4,8 milhões de litros adicionais de anidro apenas no mercado alagoano. Em 2025 foram 554 milhões de litros. No ano o aumento passaria de 10 milhões de litros.

O impacto nacional


No mercado nacional, o efeito é muito maior. De janeiro a maio de 2026, o consumo de gasolina C no país somou 19,65 bilhões de litros, segundo dados da ANP. Com a mistura atual de 30%, esse volume representa cerca de 5,89 bilhões de litros de etanol anidro.

Se a mistura subir para 32%, a demanda nacional passaria para aproximadamente 6,29 bilhões de litros. A diferença é de cerca de 393 milhões de litros adicionais de anidro apenas no acumulado dos cinco primeiros meses do ano.

Em 12 meses, a conta se aproxima do número projetado pelo setor: cerca de 1 bilhão de litros adicionais.

Alagoas produz mais etanol


O número ganha peso quando se olha para a produção estadual. Na safra 2025/2026, Alagoas produziu 483,7 milhões de litros de etanol, sendo 203,8 milhões de litros de anidro e 279,8 milhões de litros de hidratado, segundo boletim do Sindaçúcar-AL. A produção total cresceu 19,27% em relação ao ciclo anterior, enquanto a produção de açúcar caiu 12,06%.

Ou seja: Alagoas ampliou a produção de etanol justamente em uma safra em que o açúcar perdeu força no mercado internacional. A mudança do mix ajudou as usinas a buscar melhor remuneração no biocombustível, mas não eliminou a crise da cana, marcada por queda do ATR, perdas no campo e forte redução de renda dos fornecedores.

Consumo local preocupa


O problema é que o consumo local de etanol hidratado segue em queda. De janeiro a maio de 2026, as vendas no Estado somaram 24,3 milhões de litros, contra cerca de 32 milhões de litros no mesmo período de 2025. A queda acumulada chega a 24,1%.

Para um Estado produtor, esse dado acende alerta. Alagoas produz etanol, mas o consumidor local tem migrado para a gasolina. Por isso, a ampliação da mistura obrigatória interessa diretamente ao setor: aumenta a demanda por anidro e pode ajudar a reorganizar o mercado.

O presidente do Sindaçúcar-AL, Pedro Robério Nogueira, avalia que o principal efeito pode vir de mercados maiores, especialmente São Paulo. “Esperamos um aumento da produção de etanol em São Paulo, para que o mercado do açúcar fique mais enxuto, possibilitando uma recuperação nos preços”, aponta.

Na prática, a conta passa por uma engrenagem nacional. Mais etanol na gasolina aumenta a demanda por anidro. Mais cana destinada ao etanol reduz a pressão sobre o açúcar. E, para Alagoas, que enfrentou uma safra com perdas elevadas no campo, qualquer melhora na remuneração pode dar fôlego a usinas e fornecedores.