Agro
Fim da cota chinesa interrompe exportações de carne bovina brasileira
Frigoríficos reduzem abates e concedem férias coletivas após esgotamento do volume permitido para exportação à China em 2026
Os frigoríficos brasileiros começaram a interromper as exportações de carne bovina in natura para a China após a previsão de esgotamento da cota de 1,1 milhão de toneladas destinada ao mercado chinês em 2026. A expectativa do setor é que os embarques sejam retomados apenas em outubro para evitar a incidência de uma sobretaxa de 55% sobre os produtos.
Em junho, o Brasil exportou 158,3 mil toneladas de carne bovina in natura para a China, o maior volume mensal registrado neste ano. De acordo com cálculos da indústria frigorífica e de analistas de mercado, esse resultado foi suficiente para completar o limite de exportação estabelecido para 2026.
Segundo relatório da consultoria Safras & Mercados, divulgado no último sábado (4), o volume embarcado em junho representa o esgotamento da cota brasileira, considerando também as cargas enviadas no último bimestre de 2025 e contabilizadas pelas autoridades chinesas conforme a data de chegada ao país.
Até maio, dados oficiais de Pequim indicavam que 65,4% da cota já havia sido utilizada, com a entrada de 723,7 mil toneladas de carne bovina brasileira. O mercado avalia que, ao somar as cargas embarcadas em maio e junho e parte dos embarques realizados em abril ainda em trânsito, o limite autorizado foi totalmente preenchido.
Como a viagem marítima entre Brasil e China leva cerca de 40 dias, representantes do setor acreditam que a confirmação oficial do preenchimento da cota ocorrerá apenas no fim de agosto. Mesmo assim, as empresas decidiram suspender novos embarques para evitar a cobrança da tarifa adicional. Dentro da cota, a taxa é de 12%, enquanto fora do limite o imposto totaliza 67%, percentual considerado inviável para os negócios.
Diante desse cenário, diversos frigoríficos reduziram o ritmo de abates e concederam férias coletivas aos funcionários. A CEO da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel, afirmou que a produção destinada ao mercado chinês já começou a desacelerar, refletindo a paralisação das exportações.
O analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercados, avalia que algumas cargas embarcadas nos últimos dias ainda podem ultrapassar a cota e ser sobretaxadas. Segundo ele, as indústrias já adotam uma postura mais cautelosa em relação ao mercado chinês, ampliando a capacidade ociosa e reduzindo a produção.
O mercado também demonstra preocupação com a demora do Ministério do Comércio da China em emitir o alerta oficial sobre o preenchimento de 80% da cota. Para a Safras & Mercados, gargalos na internalização das cargas pelas autoridades chinesas podem explicar o atraso na divulgação.
Apesar da paralisação das exportações para a China, analistas observam avanço da demanda por carne bovina brasileira em mercados como Estados Unidos, Hong Kong, Uruguai e Argentina. Segundo a consultoria, esses destinos podem ajudar a reduzir parte dos impactos sobre o setor nos próximos meses.
A expectativa da indústria é que praticamente todas as 62 plantas frigoríficas habilitadas para exportar carne bovina à China adotem medidas de adequação entre julho e setembro. Apenas produtos que não fazem parte da cota, como gorduras, devem continuar sendo embarcados normalmente.
Executivos do setor acreditam que os importadores chineses voltarão às compras a partir de outubro, já que os produtos enviados no fim de 2026 chegarão ao destino apenas no início de 2027, quando entrará em vigor a nova cota anual. O limite de exportação para o próximo ano será ampliado de 1,106 milhão para 1,128 milhão de toneladas.
No acumulado de 2026, o Brasil exportou cerca de 1,7 milhão de toneladas de produtos bovinos, entre carnes in natura, industrializadas, salgadas, miúdos, gorduras e tripas. O faturamento do setor se aproxima de US$ 10 bilhões, com a China permanecendo como o principal destino das exportações brasileiras.

