Agro

Milho pode superar soja no Brasil, mas custos ameaçam safra 2026/27

Alta nos insumos, juros elevados e dificuldade de crédito preocupam produtores e podem reduzir investimentos no próximo ciclo agrícola

Por Redação 15/05/2026 08h08
Milho pode superar soja no Brasil, mas custos ameaçam safra 2026/27
Produtores e lideranças do agro defendem mudanças no modelo de crédito rural para ampliar a produção de milho no país - Foto: Aiba/Divulgação

O Brasil ampliou de forma expressiva a produtividade do milho nas últimas décadas e já vislumbra um cenário em que o cereal possa superar a soja como principal cultura agrícola do país. Apesar do potencial de crescimento, representantes do setor alertam que o próximo ciclo 2026/27 enfrenta obstáculos ligados ao aumento dos custos de produção, juros elevados e dificuldade de acesso ao crédito rural.

Na década de 1970, a produtividade média do milho no país era de cerca de 30 sacas por hectare. Atualmente, esse índice chega a 200 sacas por hectare. O avanço representa crescimento de 500% na produção nacional, enquanto a área plantada aumentou cerca de 80% no mesmo período.

Para o diretor-executivo da Abramilho, Glauber Silveira, o país deve produzir até três vezes mais milho do que soja no futuro.

“São cerca de 2 milhões de produtores no Brasil que cultivam para um mercado crescente. O crescimento do etanol de milho é fundamental para fomentar o cultivo, somente uma empresa do biocombustível hoje consome cerca de 12% de todo o milho produzido no Brasil”, afirmou.

O vice-presidente da Aprosoja MT, Luiz Pedro Bier, destacou que o milho ganhou protagonismo dentro das propriedades rurais.

“Hoje o milho saiu do papel secundário que ele tinha e se ganhou a mesma importância da soja. O milho dilui o custo fixo da propriedade e traz mais viabilidade para o negócio. Quanto mais milho a gente produz, mais a conta fecha”, disse.

Apesar das perspectivas positivas, o setor demonstra preocupação com a próxima safra. Entre os principais fatores apontados estão os custos elevados dos fertilizantes, preços mais baixos das commodities agrícolas e dificuldades logísticas internacionais.

O presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, afirmou que a tendência não é de redução de área plantada, mas de diminuição nos investimentos tecnológicos das lavouras.

“A maior dificuldade está no preço e disponibilidade de fertilizantes, o que pode impactar a próxima safra de milho. Não acredito em redução de área, mas deve haver retração no nível tecnológico empregado pelo produtor”, avaliou.

A senadora Tereza Cristina também alertou para os impactos das tensões internacionais no setor agrícola brasileiro.

“Estamos passando por duas guerras simultâneas. A primeira delas, já há quatro anos, traz problemas com fertilizantes. Agora, no Oriente Médio, além dos fertilizantes, a logística está sendo muito afetada, com produtos parados no Estreito de Ormuz. Os preços das commodities estão em baixa, o dólar está caindo e os insumos subindo. É uma ‘tempestade perfeita’ para dificuldades na agricultura”, comentou.

As críticas também se concentraram no atual modelo de financiamento rural. Segundo Tereza Cristina, os juros elevados inviabilizam novos investimentos no campo.

“Os juros não cabem mais no bolso do agricultor brasileiro. Precisamos pensar em um novo modelo para o Plano Safra porque o que existe hoje já não é mais compatível com as necessidades do agro”, pontuou.

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion, afirmou que o sistema atual já não acompanha o tamanho da produção nacional.

“O atual modelo do Plano Safra está completamente defasado, não é mais equivalente ao tamanho da produção brasileira. Hoje, menos de 20% do financiamento do setor vem de custeio do tesouro nacional”, declarou.

Segundo Luiz Pedro Bier, produtores do Mato Grosso enfrentam dificuldades para refinanciar dívidas e retomar investimentos.

“O produtor do Mato Grosso está endividado como nunca, mas o problema não é falta de dinheiro, e sim a falta de garantias de pagamento do produtor. O produtor não consegue se refinanciar e a engrenagem parou. Precisamos de alternativas para fazer essa roda voltar a girar”, afirmou.

Tereza Cristina acrescentou que parte significativa das dívidas do setor está concentrada no sistema bancário e criticou as taxas praticadas atualmente.

“O produtor rural está endividado e um terço desse passivo hoje é com bancos. Os bancos têm dinheiro para disponibilizar ao mercado, mas pegar dinheiro a 18% de juros é uma insanidade”, concluiu.