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Café regenerativo ganha escala no Brasil e atrai multinacionais

Modelo avança com demanda externa e pode elevar renda no campo, mas expansão depende de investimento e padronização

Por Redação 02/05/2026 07h07
Café regenerativo ganha escala no Brasil e atrai multinacionais
Cafeicultura regenerativa avança e amplia oportunidades no mercado externo - Foto: FreePik/Internet

A cafeicultura regenerativa começa a deixar o campo experimental e avança para uma escala comercial, impulsionada pela demanda internacional, pelas metas ambientais de grandes empresas e por estudos que indicam ganhos econômicos relevantes. No Brasil, iniciativas já em curso apontam que o modelo pode reposicionar o país como fornecedor estratégico de café com maior valor agregado.

Levantamento realizado pela TechnoServe, organização internacional voltada ao desenvolvimento de cadeias agrícolas, em parceria com empresas como Nestlé e JDE Peet’s, avaliou países responsáveis por cerca de 70% da produção mundial de café. De acordo com o estudo, a adoção de práticas regenerativas pode aumentar a renda dos produtores em até 62%, a depender do nível de implementação e das condições locais.

O mesmo estudo indica que, nos cenários analisados, é possível reduzir em até 46% as emissões de gases de efeito estufa na produção de café, além de ampliar as exportações em até 30%. Para viabilizar essa transição em larga escala, a TechnoServe estima investimentos de aproximadamente 560 milhões de dólares por ano durante sete anos.

Entre as práticas adotadas estão o uso de cobertura vegetal, a diminuição de insumos químicos, a aplicação de bioinsumos e a integração de árvores ao sistema produtivo. Revisões científicas internacionais, que reúnem centenas de estudos sobre agricultura regenerativa, apontam benefícios consistentes como melhora da saúde do solo, maior retenção de água e aumento da biodiversidade, fatores associados à resiliência das lavouras diante das mudanças climáticas.

No Brasil, a Região do Cerrado Mineiro se destaca como uma das principais referências na adoção dessas práticas. A área representa cerca de 12,7% da produção nacional de café e já conta com aproximadamente 30 mil hectares conduzidos sob critérios regenerativos, segundo dados da entidade que representa os produtores locais. A produção da região é exportada para mais de 30 países.

A presença no mercado internacional também ganha força. Parcerias comerciais com empresas como a illy já permitem a comercialização de cafés com atributos regenerativos, direcionados principalmente a nichos de maior valor agregado e a consumidores mais exigentes em critérios ambientais.

No campo, cooperativas brasileiras avançam na implementação do modelo. A Cooxupé desenvolve projetos que incluem corredores ecológicos, plantio de árvores nas lavouras e uso de bioinsumos. Segundo dados divulgados pela cooperativa, as áreas em transição apresentam redução no uso de defensivos, menor necessidade de irrigação e melhoria na qualidade dos grãos.

Além da produção, novas fontes de receita começam a surgir. Projetos relacionados à geração de créditos de carbono estão em desenvolvimento nessas áreas, embora especialistas e entidades do setor ressaltem que esse mercado ainda está em fase inicial e não representa, por enquanto, uma fonte consolidada de renda para a maioria dos produtores.

A demanda internacional é considerada um dos principais motores dessa transformação. Mercados como Europa, Estados Unidos e Japão ampliam exigências relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade e redução de impacto ambiental. Grandes empresas globais, como Nestlé e JDE Peet’s, têm incorporado metas ambientais em suas cadeias de fornecimento, incentivando a adoção de práticas regenerativas.

Apesar do avanço, a transição ainda enfrenta obstáculos. A TechnoServe destaca que os ganhos econômicos não são imediatos e dependem de assistência técnica, planejamento e acesso a financiamento. Outro desafio é a ausência de uma padronização global consolidada para certificação regenerativa, o que dificulta comparações entre iniciativas e mercados.

Ainda assim, a avaliação predominante entre especialistas e organizações do setor é de que a cafeicultura regenerativa tende a se expandir nos próximos anos, deixando de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito em mercados mais exigentes.

No Brasil, onde a produção de café já alia escala e tecnologia, a incorporação dessas práticas pode representar não apenas uma resposta às demandas externas, mas também uma estratégia para ampliar a competitividade e abrir novas fontes de receita no campo.