Agro

Seguro rural é peça-chave para expansão do trigo no Brasil diante do clima e do mercado

Especialistas defendem mais subvenção e políticas integradas para dar previsibilidade ao produtor e reduzir dependência externa

Por Redação* 20/02/2026 10h10 - Atualizado em 20/02/2026 10h10
Seguro rural é peça-chave para expansão do trigo no Brasil diante do clima e do mercado
Eventos climáticos recorrentes seguem como principal desafio para a expansão do trigo no Brasil - Foto: Reprodução

O Brasil cultiva trigo há décadas, mas ainda não alcançou autossuficiência. O consumo interno gira em torno de 12 milhões de toneladas por ano, enquanto a produção nacional varia conforme a safra, ficando entre 8 e 10 milhões de toneladas. A diferença é suprida por importações, principalmente da Argentina e dos Estados Unidos.

Levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a oferta doméstica segue estruturalmente abaixo da demanda, mesmo em anos de recuperação produtiva. Essa dependência expõe o mercado interno às oscilações do câmbio e à disponibilidade do trigo no mercado internacional.

Apesar do déficit histórico, ampliar a produção não é simples. O clima figura como principal entrave, mas não atua sozinho. Margens pressionadas, elevado risco e poucos instrumentos de proteção tornam a cultura mais sensível no planejamento do produtor rural.

Clima: risco permanente


O trigo é altamente sensível às condições climáticas. Falta de chuva no início do ciclo, excesso de precipitação na colheita e geadas no enchimento de grãos afetam diretamente produtividade e qualidade.

Estudos técnicos da Embrapa Trigo apontam que eventos climáticos adversos são recorrentes nas regiões produtoras, sobretudo no Sul. Em diversas safras recentes houve registros de perdas parciais ou totais, além de comprometimento da qualidade industrial do grão.

Essa instabilidade amplia o risco financeiro. Em anos de chuva excessiva na colheita, por exemplo, mesmo com volume razoável, a queda na qualidade reduz o preço recebido pelo produtor.

Seguro rural como sustentação da atividade


Nesse contexto, o seguro rural ganha papel central. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), operado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, cobre parte do valor do prêmio pago às seguradoras, tornando a contratação mais acessível.

Ainda assim, o orçamento do programa é disputado entre diversas culturas, e o trigo é classificado como de alto risco. Isso eleva o custo do seguro e dificulta a adesão em condições consideradas atrativas.

Para Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, o instrumento é decisivo para o avanço da cultura no país.

“O seguro rural é a chave fundamental para o trigo deslanchar no Brasil. Há uma dificuldade de se contratar o seguro rural, especialmente com preços que sejam atrativos, exatamente porque o trigo é uma cultura de alto risco em função das alterações climáticas. E, além disso, existem neste ano, especialmente, além da questão de seguro, uma questão de crédito muito complicada. O produtor está descapitalizado e os seguros que são disponibilizados são seguros que acabam tendo um custo elevado em função da incerteza em relação à colheita do trigo por questões climáticas. O trigo sofre com seca, sofre com chuva, sofre com geadas, enfim, são vários fatores climáticos que podem interferir na colheita de trigo”.

Segundo ele, no Brasil, em mais da metade dos anos ocorre algum tipo de quebra de safra por fatores climáticos.

“Então, o seguro rural é algo que precisa, que existe a necessidade, sobretudo subsidiado pelo setor governamental, é importante ou quase imprescindível para a produção de trigo no Brasil.”

Preço pressionado e concorrência externa


Mesmo com produção insuficiente, o trigo nacional enfrenta limites de preço. As importações recorrentes fazem com que o mercado interno seja influenciado pelo produto externo. Quando o trigo argentino chega competitivo, os valores domésticos tendem a recuar.

Esse cenário reduz a previsibilidade de margem. O produtor enfrenta um risco duplo: climático e comercial. Além disso, o trigo disputa área com outras culturas de inverno e, em algumas regiões, com o milho safrinha. Diante de crédito mais restrito e custos elevados, a tendência é priorizar lavouras com menor exposição.

Crédito e descapitalização


O ambiente financeiro também pesa. Juros elevados e restrições de recursos em alguns ciclos do Plano Safra levam produtores mais descapitalizados a reduzir investimentos em culturas consideradas mais vulneráveis. Sem seguro adequado, todo o risco da lavoura recai sobre o produtor. Em caso de quebra, o impacto pode comprometer o caixa das próximas safras.

Segurança alimentar e política pública


A dependência externa mantém o Brasil exposto às oscilações internacionais. Problemas produtivos em grandes exportadores ou variações cambiais bruscas elevam o custo da importação e pressionam a cadeia interna.

Especialistas defendem a ampliação da subvenção ao seguro rural e maior previsibilidade orçamentária como medidas essenciais para dar segurança ao produtor e estimular o aumento da área cultivada. O seguro, porém, não resolve todos os gargalos. Competitividade, qualidade industrial, logística e mercado precisam avançar de forma integrada.

Ainda assim, sem proteção contra quebras recorrentes, o risco afasta o produtor da cultura. Em um país que consome mais trigo do que produz, fortalecer os instrumentos de gestão de risco é estratégico. Para o setor, o seguro rural vai além de uma apólice: é a base para que o trigo ganhe espaço no Brasil.

*Com informações da Notícias Agrícolas