Política
Milei acusa Lula de 'campanha anti-Argentina' após reação diplomática do Brasil
Presidente argentino intensifica ataques ao governo brasileiro e ao STF; Itamaraty convocou embaixador em resposta a ofensas em evento do PL
Uma nova crise diplomática se instalou entre Brasília e Buenos Aires. O presidente da Argentina, Javier Milei, acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de comandar uma suposta campanha "anti-Argentina". A declaração foi dada logo após o governo brasileiro convocar o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas — um dos movimentos de maior desagrado na diplomacia.
A reação do Itamaraty ocorre em resposta a fortes ofensas proferidas por Milei durante a convenção do PL (Partido Liberal) no Brasil, evento que oficializou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. No discurso proferido em solo brasileiro, o mandatário argentino chamou Lula de "presidiário" e direcionou ofensas pesadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a quem se referiu como "lixo careca".
De acordo com a narrativa defendida por Milei, as investidas contra seu país teriam ganhado força durante a Copa do Mundo de 2026, momento em que casos de racismo praticados por torcedores argentinos ganharam ampla repercussão no Brasil. O presidente alega que autoridades e veículos da imprensa brasileira generalizaram os episódios para queimar a imagem do povo argentino.
Milei vem sustentando nas últimas semanas que há uma ofensiva coordenada contra o seu governo. O líder argentino rotula esse suposto movimento como uma "batalha cultural" liderada pela esquerda na América Latina.
Para o corpo diplomático brasileiro, as declarações de Milei em evento partidário no Brasil configuram uma grave violação de protocolo. Na práxis internacional, críticas severas entre chefes de Estado costumam ser reservadas a fóruns internacionais ou pronunciamentos em seus próprios territórios, e não proferidas em palanques políticos dentro do país criticado.
A convocação do embaixador Julio Bitelli sinaliza um estremecimento profundo no relacionamento bilateral. O diplomata pode retornar ao posto após um breve período de alinhamento em Brasília ou, em caso de agravamento do cenário, permanecer por tempo indeterminado no Brasil.
Ataques ao STF e apoio a Jair Bolsonaro
O descontentamento de Milei com o judiciário brasileiro se intensificou após ter seu pedido negado para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado. O presidente argentino classificou a restrição imposta por Alexandre de Moraes como "injusta".
Em nota oficial divulgada logo após o pronunciamento, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, repudiou publicamente as ofensas de Milei, classificando-as como uma "referência desrespeitosa a magistrado da mais alta corte do país, feita em solo brasileiro".
O Partido dos Trabalhadores (PT) também emitiu nota de repúdio. O histórico de hostilidades do líder argentino contra o presidente Lula é recorrente — em ocasiões anteriores, o mandatário já havia se referido ao petista como "ladrão".
