Agro
Caso Nutratta: novo laudo relaciona morte de cavalos à toxina em ração
Documento foi elaborado pelo laboratório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
Um novo laudo elaborado pelo laboratório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos apontou relação direta entre as mortes de 84 equinos do Haras Nova Alcateia, localizado no Povoado Ouricuri, em Alagoas e lotes de ração produzidos pela empresa Nutratta Nutrição Animal Ltda. O documento foi finalizado no início de fevereiro deste ano.
Os animais morreram, em sua maioria, entre maio e agosto de 2025, após consumir a ração da empresa Nutratta Nutrição Animal Ltda. Ao todo, foram mais de 200 mortes em todo o Brasil. Alagoas configurava entre os estados mais afetados, com 65 cavalos mortos já na primeira semana de julho, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
O Haras Nova Alcateia contabiliza prejuízo financeiro estimado em algumas dezenas de milhões, dentre os quais estão incluídos, além dos valores de mercado dos animais mortos, os lucros cessantes dos seus produtos que deixarão de ser comercializados, como coberturas dos reprodutores e embriões, óvulos e crias das matrizes e doadoras.
Dentre os maiores prejuízos, estão as mortes de dois campeões nacionais mais valorizados e bem avaliados do Brasil, o Quantum da Alcateia e a Thayla da Alcateia, o que causou uma perda de R$ 30 milhões.
“Isso abalou seriamente o comércio dos animais do Haras, pois duas gerações de animais foram perdidas”, afirma David Ferreira da Guia, advogado que representa a fazenda em um processo ajuizado contra a empresa Nutratta. O Haras busca ressarcimento dos valores.
“Só para ter uma ideia do tamanho da imagem do Haras Nova Alcateia no cenário brasileiro de criadores da raça Mangalarga Marchador, na exposição nacional de 2024 ocorrida em Belo Horizonte, cerca de 60% dos animais que obtiveram as melhores premiações do evento eram originários do Haras Nova Alcateia ou derivados de seus produtos”, explica o advogado.
Com as 84 mortes registradas, a fazenda encaminhou cinco amostras dos lotes de ração da empresa Nutratta ao Poisonous Plant Research Laboratory, laboratório de pesquisa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, localizado em Utah.
Com as análises, produtores buscavam confirmar a presença de substâncias nocivas aos animais e determinar a proporção de toxicidade existente nas rações.
O documento, acompanhado e assinado em português pelo médico-veterinário e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Fábio de Souza Mendonça, apontou a presença, em todas as amostras analisadas, de monocrotalina e monocrotalina N-óxido, toxinas naturais produzidas por plantas do gênero crotalária.
Também foram encontrados, em pequenas quantidades, alcaloides pirrolizidínicos — conhecidos como trace amounts — que apresentam níveis de toxicidade em animais como os equinos.
Essas substâncias são conhecidas por causar problemas graves no fígado e nos pulmões dos animais, provocando sérios problemas quando contaminam rações de cavalos, podendo levá-los à morte.
O laudo laboratorial concluiu que a concentração das substâncias encontradas estava em níveis “capazes de causar lesões hepáticas graves, encefalopatia hepática e morte de equinos, compatíveis com os surtos observados em campo”.
“O estudo do Departamento de Agricultura dos EUA confirma o que o Ministério da Agricultura e Pecuária já apontou: a responsabilidade da empresa por falhas no processo produtivo que geraram a contaminação das rações por alcaloides pirrolizidínicos. O Mapa também confirmou o problema com apoio da Universidade Federal Rural de Pernambuco, que coletou amostras de tecidos e sangue dos animais durante as necropsias”, conclui.

