Agro
Acordo Mercosul–UE pressiona cadeia do leite e reacende debate sobre competitividade no Brasil
Depois de 26 anos de negociações, tratado cria cotas para lácteos europeus, é alvo de questionamentos judiciais e evidencia fragilidades históricas do setor
O acordo comercial firmado entre Mercosul e União Europeia (UE), concluído após mais de duas décadas de negociações e atualmente judicializado, reacendeu o debate sobre os impactos no setor lácteo brasileiro. A abertura de cotas com redução tarifária para itens como queijos e leite em pó europeus gera preocupação entre produtores, mas especialistas avaliam que os principais entraves do setor não estão apenas na concorrência externa, e sim em problemas estruturais da própria cadeia produtiva nacional.
Na avaliação de técnicos e agentes do mercado, o tratado apenas evidencia desafios antigos enfrentados pelo segmento, como custos elevados, margens reduzidas, instabilidade de preços, escassez de informações confiáveis e baixa eficiência tanto na produção quanto no processamento industrial.
Gestão pesa mais que tarifa, avalia Embrapa
O pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Dr. Paulo Martins, afirma que a ideia de prejuízo automático ao produtor brasileiro com a entrada de produtos europeus precisa ser analisada com cautela. Para ele, a perda de competitividade do leite nacional está diretamente ligada a falhas de gestão presentes tanto nas propriedades quanto nos laticínios.
“O principal problema brasileiro é a baixa qualidade de gestão no setor primário e nos laticínios. Isso faz com que os nossos produtos sejam mais caros”, afirma. Segundo o pesquisador, admitir essa limitação é essencial para avançar em produtividade e redução de custos.
Martins também ressalta a importância de aprofundar análises sobre os subsídios concedidos aos produtores europeus, incluindo transferências diretas e incentivos ligados a insumos. Caso confirmados, o Brasil poderia discutir mecanismos de compensação. Ainda assim, ele acredita que há tempo para ajustes internos antes de impactos mais significativos do acordo no mercado.“O que não dá é para não fazer o acordo. Ele será bom para o Brasil no seu conjunto”, resume.
Outro receio recorrente entre produtores é que a previsibilidade de importações europeias seja usada para pressionar os valores pagos ao leite no campo. Para o pesquisador, essa interpretação simplifica o funcionamento do mercado.
“A indústria não é a vilã do setor”, afirma Martins. Segundo ele, quem concentra maior parcela de valor na cadeia são redes varejistas e indústrias que utilizam leite como insumo em produtos como biscoitos, chocolates e doces, setores que possuem maior poder de negociação e acabam influenciando os preços pagos aos laticínios, refletindo posteriormente no produtor.
Além disso, o elevado número de laticínios existentes no país faz com que os preços acompanhem diretamente a relação entre oferta e demanda. Em períodos de escassez, como ocorreu em 2022, quando houve retração aproximada de 10% na produção, os valores sobem. Já em cenários de maior disponibilidade, como o atual, impulsionado pelo aumento da produção e pelas importações, a tendência é de queda.
Para Martins, a forte volatilidade observada nos preços não decorre apenas de disputas comerciais, mas também da ausência de informações confiáveis ao longo da cadeia produtiva. A carência de dados consistentes sobre produção primária e industrial gera incerteza e dificulta previsões de preços em médio prazo.
“Isso mostra imaturidade e desorganização da indústria”, afirma. Segundo ele, ampliar a coleta e divulgação de informações é fundamental para diminuir a instabilidade e permitir decisões mais estratégicas por produtores e investidores.
Europa não altera oferta no curto prazo, avalia indústria
Sob a ótica industrial, o CEO da Cia do Leite, Ronaldo Carvalho, considera que o acordo não deve provocar mudanças relevantes na oferta de produtos lácteos no mercado brasileiro no curto e médio prazo.
“Eu não vejo nem risco e nem ganho”, afirma. Carvalho lembra que Argentina e Uruguai já são os principais fornecedores de leite em pó ao Brasil, beneficiados por custos menores, câmbio favorável e logística mais eficiente que a europeia, o que limita o impacto da entrada de produtos da UE.
Mesmo com subsídios, segundo ele, fatores como custo de terra, restrição de áreas produtivas e valorização das moedas europeias reduzem a competitividade do leite produzido no continente frente aos países vizinhos do Mercosul.
Se por um lado não se espera uma invasão de lácteos europeus no mercado nacional, por outro o tratado pode abrir oportunidades pontuais para produtos brasileiros de maior valor agregado. Carvalho avalia que commodities lácteas dificilmente terão espaço na Europa, mas nichos específicos podem surgir.
“Alguns produtos de valor agregado nosso podem, sim, entrar no mercado europeu”, afirma, citando especialmente produtos proteicos, que ganham espaço no consumo interno e podem alcançar também mercados externos.
Ainda assim, ele observa que a cadeia produtiva brasileira costuma reagir lentamente, e eventuais investimentos devem ocorrer somente após a efetiva implementação do acordo e a identificação clara de oportunidades comerciais.
Exigências sanitárias e ambientais entram no foco
Apesar de possíveis oportunidades, barreiras técnicas e sanitárias são vistas como obstáculos reais. Carvalho aponta que a UE pode utilizar exigências sanitárias e ambientais como forma de limitar a entrada de produtos brasileiros, especialmente caso o saldo comercial passe a favorecer o Brasil.
Nesse contexto, estados da região Sul aparecem em posição mais avançada. Segundo o executivo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul vêm, há mais de dez anos, adaptando-se a padrões sanitários, certificações e práticas ligadas à sustentabilidade.
Para acessar o mercado europeu, ele defende investimentos em ESG, rastreabilidade, certificações e na construção de uma narrativa de valor para os produtos brasileiros. “O europeu agrega valor contando uma boa história”, afirma, citando o apelo ambiental e familiar presente em produtos lácteos vendidos na Europa.
Desafio permanece interno
Tanto especialistas quanto representantes da indústria concordam que o acordo Mercosul–UE não gera automaticamente uma crise para o setor leiteiro brasileiro, mas expõe fragilidades históricas ainda não resolvidas.
Questões como eficiência produtiva, acesso a crédito, organização de dados, sanidade animal e estratégias de mercado continuam sendo determinantes para garantir competitividade tanto no mercado interno quanto em possíveis oportunidades externas.
Para o produtor rural, a conclusão é direta: mais importante do que temer a concorrência europeia será investir em gestão, tecnologia e profissionalização para enfrentar um mercado cada vez mais exigente e volátil.
*Com informações da notícias agrícolas


