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China deve priorizar soja brasileira no primeiro semestre

Produção recorde no Brasil e preços mais baixos devem ampliar embarques à China, reduzindo espaço para o produto dos Estados Unidos

Por Redação* 27/01/2026 09h09 - Atualizado em 27/01/2026 10h10
China deve priorizar soja brasileira no primeiro semestre
Diferença de tarifas e custos logísticos favorece o Brasil nas exportações de soja ao mercado chinês - Foto: Reprodução

A China deve intensificar as importações de soja do Brasil no primeiro semestre, impulsionada por uma safra recorde e valores mais competitivos. O movimento reforça o protagonismo da América do Sul no abastecimento do maior importador mundial de oleaginosas.

Com o avanço da colheita brasileira, processadores privados chineses já vêm fechando contratos para embarques a partir de fevereiro. O aumento da oferta pressiona os preços e tende a reduzir a demanda por soja dos Estados Unidos, especialmente no início da próxima temporada de exportação norte-americana, prevista para setembro.

Segundo fontes do mercado, cerca de 12 milhões de toneladas de soja dos EUA foram adquiridas exclusivamente pelas estatais chinesas Sinograin e COFCO. Os valores mais elevados do produto norte-americano afastaram compradores privados, que seguem priorizando o grão brasileiro.

Mesmo que Pequim determine novas compras por parte das estatais para cumprir compromissos do acordo comercial com Washington, a diferença tarifária pesa contra os EUA. A soja norte-americana enfrenta tarifa de 13%, enquanto o produto brasileiro é taxado em 3%, tornando-se mais atraente para os esmagadores privados.

"Os volumes atuais de compra de soja dos EUA pela China são limitados, suficientes apenas para manter uma atmosfera política positiva antes da reunião de abril entre os líderes dos dois países", disse Dan Wang, diretor de China do Eurasia Group, uma consultoria de risco político global.

"Se a reunião de abril produzir mais reduções de tarifas e certas garantias sobre a questão de Taiwan, a China poderá se comprometer com as compras de soja, mas os volumes provavelmente permanecerão limitados."

De acordo com operadores ouvidos pela Reuters, as margens de esmagamento da soja brasileira embarcada entre março e junho seguem favoráveis, estimulando novos negócios.

"Provavelmente veremos exportações mais altas (do Brasil) para a China no período de março a junho, mais altas do que no ano passado", disse um trader de uma grande empresa global. "A soja do Brasil é muito mais barata do que a soja dos EUA nesse período."

Anteriormente, havia expectativa de retração nas compras chinesas de soja brasileira em 2026, após aquisições pontuais do produto norte-americano, cenário que agora perde força.

Soja dos Estados Unidos


Desde o fim de outubro, empresas estatais chinesas compraram cerca de 12 milhões de toneladas de soja dos EUA, volume inferior às aproximadamente 23 milhões de toneladas adquiridas no ano-safra 2024/25.


Em 18 de novembro, a soja brasileira para embarque em dezembro com destino à China foi cotada a US$ 507,90 por tonelada, abaixo dos US$ 516,90 do produto embarcado pelo Golfo dos EUA e dos US$ 510,50 da origem do Noroeste do Pacífico, considerando custo e frete, sem tarifas.

Nessas condições, a China teria desembolsado entre US$ 31 milhões e US$ 108 milhões a mais ao optar por 12 milhões de toneladas de soja norte-americana em vez da brasileira.

As compras dos EUA foram retomadas após encontro entre os líderes dos dois países no fim de outubro. Na ocasião, a Casa Branca informou que a China se comprometeu a adquirir ao menos 25 milhões de toneladas anuais nos próximos três anos, a partir de 2026.

Na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que visitará a China em abril, enquanto o presidente Xi Jinping deve viajar aos EUA no fim de 2026.

Safra da América do Sul


Operadores não projetam novas reservas significativas de soja dos EUA no curto prazo, citando preços mais altos e safras robustas previstas para Brasil e Argentina.

"Nossa grande safra torna nosso produto mais barato do que o dos EUA, e isso tende a durar até a chegada da nova soja dos EUA a partir de setembro", disse Adelson Gasparin, corretor de grãos no sul do Brasil, ao destacar a expectativa de manutenção das importações chinesas.

Segundo analistas, a soja brasileira embarcada em fevereiro é pelo menos 50 centavos de dólar por bushel mais barata que a do Golfo dos EUA em base free-on-board, diferença que pode chegar a 75 centavos nos embarques de março.

Com a intensificação da colheita, a pressão sobre os preços brasileiros deve aumentar. "Acho que a diferença vai aumentar", disse Dan Basse, presidente da AgResource Co. "Talvez para algo como um dólar."

Alguns operadores avaliam que compras pontuais dos EUA ainda podem ocorrer durante o pico das exportações sul-americanas, mas apenas em volumes reduzidos, salvo em caso de orientação direta do governo chinês ou gargalos logísticos nos portos brasileiros. "Não acho que isso funcione sem uma imposição do governo", afirmou um trader.

A produção brasileira de soja para a safra 2025/26 é estimada em um recorde de 182,2 milhões de toneladas, segundo a consultoria Agroconsult. Para o período entre setembro de 2025 e agosto de 2026, o Rabobank projeta exportações brasileiras de aproximadamente 85 milhões de toneladas para a China, crescimento de 6 milhões em relação ao ciclo anterior.

Operadores asiáticos informam que a China já reservou entre 42 milhões e 44 milhões de toneladas de soja brasileira para o período de setembro a agosto, sendo de 23 milhões a 25 milhões de toneladas entre fevereiro e agosto. O rebanho suíno chinês segue elevado, apesar das tentativas do governo de reduzir o excesso de capacidade. Analistas avaliam que uma queda significativa só deve ocorrer após o segundo trimestre, sustentando a demanda por farelo de soja no primeiro semestre de 2026.

No ciclo 2024/25, a China importou 109,37 milhões de toneladas de soja. Para 2025/26, o governo chinês estima retração para 95,8 milhões de toneladas.

*Com informações do Reuters