Política
Doutrina Donroe: cinco episódios de interferência dos EUA na política brasileira
Os parlamentares expressaram preocupação de que as ações do governo norte-americano possam prejudicar a relação bilateral
Trinta e um congressistas dos Estados Unidos enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, acusando o governo do então presidente Donald Trump de pressionar e tentar interferir politicamente no Brasil.
Os parlamentares expressaram preocupação de que as ações do governo norte-americano possam prejudicar a relação bilateral, já que o Brasil é não só um parceiro tradicional dos EUA, mas também a maior economia da América Latina.
O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva tem alertado sobre tentativas de interferência dos EUA no processo eleitoral brasileiro, tema que voltou a abordar em discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). Lula destacou o avanço de posturas hegemônicas no continente e afirmou: "O Brasil não cabe no quintal de ninguém".
Poucos dias antes do primeiro turno das eleições, a reportagem apresenta cinco momentos em que os EUA buscaram interferir na política brasileira durante a atual gestão.
Tarifaço
Os Estados Unidos enviaram ao Brasil um documento confidencial propondo aliviar o tarifaço de 50% imposto ao país, em troca de 21 compromissos exigidos pelo governo Trump.
Entre as condições estavam imposições comerciais, regulatórias e uma demanda específica sobre as eleições presidenciais, determinando que o Brasil não poderia "deter, prender ou limitar arbitrariamente" opositores políticos.
A exigência foi interpretada como uma referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, atualmente em prisão domiciliar humanitária e inelegível até 2030. O Itamaraty não se pronunciou sobre a proposta.
Sanções a ministros
Em setembro de 2025, a administração Trump impôs sanções a autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky. Juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram o visto para os EUA cancelado, exceto André Mendonça, Nunes Marques e Luiz Fux. Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, foram punidos com sanções financeiras e bloqueio de ativos. O cancelamento de vistos também atingiu o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e outros servidores do Judiciário.
Um mês antes, o Departamento de Estado dos EUA já havia cancelado o visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua filha de dez anos, pelo papel de Padilha na criação do programa Mais Médicos, em 2013, durante o governo Dilma Rousseff.
Tentativas de descredibilizar o processo eleitoral
Em julho de 2025, o Ministério das Relações Exteriores negou pedidos de visto a dois diplomatas do Departamento de Estado dos EUA, que pretendiam vir ao Brasil. A negativa ocorreu após a revelação de que a missão teria como objetivo questionar a integridade e confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Os vistos foram solicitados por Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Segundo o jornal Washington Post, ambos fariam parte de uma estratégia do governo Trump para reunir informações e levantar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro às vésperas das eleições presidenciais.
Classificação de facções brasileiras como terroristas
Em maio deste ano, os EUA classificaram as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida é vista como uma tentativa do governo Trump de mobilizar segmentos da sociedade brasileira em prol da oposição, utilizando o tema da segurança pública.
Paralelamente, o governo Trump reuniu países latino-americanos na iniciativa chamada Escudo das Américas, considerada por analistas uma forma velada de ampliar o controle e a tutela norte-americana sobre a região, numa releitura da Doutrina Monroe e da política do Big Stick, que consolidou os EUA como "policial internacional" do Hemisfério Ocidental.
Instrumentalização da Argentina
Com o esfriamento das relações entre Brasil e EUA, a Argentina tem se aproximado politicamente da administração Trump, o que é interpretado por especialistas como uma estratégia dos EUA para isolar o Brasil na região, usando a Argentina como aliada estratégica.
Recentemente, o presidente argentino Javier Milei compartilhou uma publicação do deputado republicano Carlos A. Giménez, aliado de Trump, na qual Lula foi chamado de "porco". Milei também esteve no Brasil para participar da convenção do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência.
Por Sputnik Brasil
