Política
Embaixador brasileiro destaca importância do consenso global para fortalecimento da Convenção de Armas Biológicas
Meyer explicou que a comissão tem como missão "desarmar o mundo", abordando temas que vão de armas nucleares a biológicas
Em meio a um cenário internacional de desconfiança e disputas políticas, o embaixador brasileiro Frederico Meyer afirmou, em entrevista à Sputnik Brasil, que o fortalecimento da Convenção de Armas Biológicas depende de consenso global, especialmente diante dos desafios tecnológicos para verificar o uso bélico dessas armas.
Frederico Meyer, embaixador do Brasil junto à Comissão de Desarmamento das Nações Unidas, preside atualmente o grupo responsável por fortalecer a Convenção sobre Armas Biológicas, em vigor há 51 anos. Trata-se da única convenção internacional que proíbe totalmente a produção, o armazenamento e a transferência de armas biológicas, resultado de lições aprendidas após a Primeira Guerra Mundial.
Em entrevista, Meyer explicou que a comissão tem como missão "desarmar o mundo", abordando temas que vão de armas nucleares a biológicas e armamento leve. Apesar das dificuldades de fiscalização e verificação do emprego de tecnologias em escala global, o grupo deve concluir seus trabalhos em dezembro, com cerca de "93% do texto semi-aprovado".
Questionado sobre o controle de pesquisas com potencial uso bélico, o embaixador foi categórico: "Você não consegue controlar. Isso é impossível."
Meyer ressaltou que, ao contrário do passado, as tecnologias atuais permitem a produção de agentes biológicos em estruturas simples, ampliando os desafios. "Você pode usar uma fábrica de cerveja para produzir arma biológica. Você pode usar uma fábrica de queijo", exemplificou, destacando o caráter dual das biotecnologias.
O diplomata reforçou o apoio integral do Brasil à Convenção, lembrando que "a política do Brasil é total, tanto é que eu fui escolhido para presidir esse grupo". Ele reconheceu, no entanto, que as tensões políticas internacionais atravessam todas as reuniões multilaterais, de Genebra à área de direitos humanos, um cenário já percebido por outras autoridades, especialmente do Sul Global.
Meyer também destacou a relevância dos três Estados depositários da Convenção — França, Reino Unido e Rússia —, responsáveis por guardar, administrar e certificar os documentos jurídicos produzidos por consenso, e ressaltou a importância da Rússia nesse contexto.
O diplomata lembrou ainda que Rússia, Estados Unidos, China e países europeus são atores centrais nas negociações, mas advertiu que disputas geopolíticas frequentemente contaminam debates que deveriam ser técnicos.
"O cenário político internacional é refletido em todas as reuniões, seja em Genebra, na Organização Internacional do Trabalho [OIT], na Comissão de Direitos Humanos ou no Desarmamento. Costumamos dizer que o importante não é a mensagem, é o mensageiro", explicou, ressaltando que países rejeitam propostas não pelo conteúdo, mas pela origem, o que influencia negativamente as decisões.
Como exemplo, Meyer citou as acusações mútuas entre Estados Unidos e Rússia sobre supostos programas biológicos, o que dificulta ainda mais o diálogo. "Mesmo na época da Guerra Fria era mais fácil do que hoje. Era mais fácil o diálogo", afirmou.
Ao final, Meyer destacou que o desafio central é garantir vontade política suficiente para concluir o texto em dezembro. "Todo mundo tem que apoiar", reforçou, lembrando que o objetivo é alcançar um resultado por consenso, aceito por todos os países.
Por Sputnik Brasil
