Política
JHC critica AL, mas Maceió lidera analfabetismo entre capitais
A página de JHC no Instagram retirou boa parte da explicação e juntou a pergunta da jornalista sobre os 14,2% com um recorte fora de contexto
A taxa de analfabetismo de Alagoas entrou na campanha eleitoral durante a sabatina de Renan Filho na TV Pajuçara, nesta terça-feira (08/09). Questionado sobre qual seria sua meta para reduzir o índice de 14,2% até o fim de um eventual mandato, o candidato apresentou números da educação, explicou o peso das gerações mais velhas, mas não deu a resposta objetiva pedida pela entrevistadora.
Renan Filho ficou devendo uma meta. Poderia ter estabelecido um percentual, um prazo ou pelo menos indicado quantos alagoanos pretende alfabetizar. Em vez disso, alongou a resposta e acabou oferecendo aos adversários um trecho que seria usado nas redes sociais.
A página de JHC no Instagram retirou boa parte da explicação e juntou a pergunta da jornalista sobre os 14,2% com um recorte fora de contexto da fala de Renan Filho sobre WhatsApp, inteligência artificial e até namoro. O corte passa a impressão de que essa foi a resposta apresentada para enfrentar o analfabetismo.
Não foi. Antes desse trecho, Renan explicou que o problema tem forte componente geracional, citou a expansão do ensino integral, as creches, o aumento das matrículas e das conclusões no ensino médio. Também disse que pretende ampliar as oportunidades para adultos que desejam voltar a estudar.
A edição feita por JHC é eficiente como propaganda. Como informação, omite a maior parte da resposta. Isso não elimina o ponto que permanece: Renan Filho não apresentou a meta solicitada.
Alagoas avançou
Os números do IBGE mostram uma realidade que não cabe inteiramente no discurso de nenhum dos dois candidatos. Alagoas continua com a maior taxa de analfabetismo do país, mas também foi o Estado que mais avançou entre os censos de 2010 e 2022.
A taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais passou de 75,7% para 82,3%. Em sentido inverso, o analfabetismo caiu de aproximadamente 24,3% para 17,66%. Foi o maior crescimento da alfabetização entre as unidades da Federação no período, embora insuficiente para retirar Alagoas da última posição nacional.
Em 2024, pela PNAD Contínua, o índice estadual caiu para 14,2%. O resultado mostra novo avanço em relação ao Censo, mas Alagoas permaneceu com a maior taxa do Brasil, desta vez empatado com o Piaui. A média nacional era de 5,3%.
Renan também está correto ao apontar o peso geracional. Em 2022, o analfabetismo atingia 3% dos alagoanos de 15 a 19 anos, mas chegava a 45,59% entre aqueles com 65 anos ou mais. O problema é muito maior entre os idosos, embora isso não retire do poder público a obrigação de alcançá-los.
E Maceió?
JHC afirma que “manter um em cada sete alagoanos sem saber ler e escrever é falta de vontade política”. A cobrança é legítima. Mas os dados de Maceió mostram que a capital também não conseguiu superar completamente essa dívida.
No Censo 2022, Maceió registrou taxa de analfabetismo de 8,42%, maior taxa de analfabetismo entre os municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes. Em 2024, o índice foi estimado em 6,4%, o pior entre as capitais do país.
A comparação precisa considerar que Maceió tem uma população mais urbana e melhores condições de acesso à escola do que a maioria dos municípios do interior. Também é preciso lembrar que o analfabetismo entre adultos resulta de décadas de exclusão e não pode ser atribuído integralmente a um único prefeito ou governador.
Na mesma balada
Entre os censos de 2010 e 2022, a queda foi praticamente igual: Alagoas: de 24,3% para 17,66%; Queda de 6,64 pontos percentuais ou redução proporcional de 27,3%. Maceió: de 11,4% para 8,42%; Queda de 2,98 pontos percentuais ou redução proporcional de 26,1%.
Ou seja, proporcionalmente, Alagoas reduziu o analfabetismo um pouco mais que Maceió: 27,3% contra 26,1%.
Os dois precisam acertar
Há resultados positivos dos dois lados. Alagoas foi o Estado que mais avançou na alfabetização entre 2010 e 2022. Maceió também reduziu sua taxa ao longo dos anos.
Mas Estado e capital permanecem nas últimas posições quando comparados aos seus equivalentes nacionais. Alagoas é o pior entre os estados. Maceió é a pior entre as capitais.
Renan Filho precisa dizer qual meta pretende cumprir e como alcançará os adultos e idosos deixados para trás. JHC, que deve participar da sabatina nesta quarta-feira (09/09), terá a oportunidade de apresentar sua própria proposta e explicar por que Maceió, apesar da redução, continua atrás das demais capitais.
O analfabetismo em Alagoas não começou com Renan Filho nem com JHC. Mas não pode continuar sendo tratado apenas como uma herança do passado ou uma arma de campanha. Existem gerações que ficaram para trás e continuam esperando uma resposta do poder público.


