Política

Sessão na ALE/AL destaca maracatu como expressão de resistência e identidade cultural de Alagoas

Proposta pela deputada Elida Miranda, audiência reuniu mestres, batuqueiros, pesquisadores e fazedores de cultura para discutir a história e a permanência do maracatu no estado

Por Redação. 22/08/2026 09h09
Sessão na ALE/AL destaca maracatu como expressão de resistência e identidade cultural de Alagoas
- - Foto: Reprodução/internet

Mestres, mestras, batuqueiros, brincantes, pesquisadores, produtores e fazedores de cultura participaram, na tarde desta sexta-feira (21), de uma sessão pública especial na Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE/AL), em alusão ao Dia Nacional do Maracatu, celebrado em 1º de agosto. Proposta pela deputada estadual Elida Miranda (PT), a sessão discutiu a trajetória do maracatu e sua importância para a cultura e a identidade alagoanas.

Durante o encontro, representantes de grupos de maracatu e pesquisadores destacaram os períodos de perseguição e silenciamento enfrentados pela manifestação e as diferentes formas encontradas para manter a tradição viva nas comunidades, nos terreiros, nas ruas e nos espaços culturais.

“Foi uma tarde de muita emoção. Tivemos uma verdadeira aula de história, tecida nas falas dos representantes dos grupos de maracatu, pesquisadores e convidados. Eles nos mostraram que falar de maracatu é falar de resistência, de memória, de ancestralidade, reexistência e futuro”, afirmou Elida, que também se apresentou como batuqueira do Baque Alagoano.

A professora Angela Brito, do Maracadot@as, explicou que o maracatu é uma manifestação cultural, musical e religiosa afro-brasileira, formada pela influência de elementos das culturas africana, indígena e europeia. “Maracatu é corpo, palavra, crença e magia, que são os fundamentos da filosofia Bacongo”, afirmou.

Os participantes também lembraram a Quebra de Xangô, ocorrida em Maceió, em 1912, marcada pela perseguição e violência contra terreiros e manifestações religiosas de matriz africana. O episódio foi apontado como um dos momentos que contribuíram para o silenciamento de expressões da cultura afro-alagoana.

Segundo Hélton Souto, do Baque Alagoano, após a Quebra de Xangô, alguns estudiosos chegaram a considerar que o maracatu havia desaparecido de Alagoas. Durante muito tempo, o retorno da manifestação foi associado à criação do Maracatu Baque Alagoano, em 2007. Estudos mais recentes, porém, apontam registros de grupos anteriores, como os “Cabindas do Jaraguá” e “Os Africanos”, que teriam atuado no estado na década de 1930.

A pesquisadora e integrante do Maracatu Yá Dandara, Sarah Dias, destacou ainda a retomada do maracatu em Alagoas a partir dos anos 2000. Segundo ela, a oficina de maracatu do mestre Wilson Santos teve influência no surgimento de coletivos como o Baque Alagoano e o AfroCaeté, que passaram a utilizar a percussão também como instrumento de afirmação da identidade cultural.

A importância da preservação da memória também foi ressaltada por Júlia Araújo, do Maracatu Novaurora. Ela citou registros históricos encontrados em Palmeira dos Índios, entre eles uma referência a maracatus no carnaval da cidade publicada no jornal O Índio, em 1924.

“Essas histórias precisam ser conhecidas, preservadas e contadas. E é nesse caminho que o Novaurora se coloca hoje”, afirmou.

João Lima, do Coletivo AfroCaeté, destacou o significado de levar a manifestação para o Legislativo estadual. “Trazer o maracatu para dentro desta Casa é simbólico. Isso precisa ser registrado e enaltecido”, disse. Ele também citou Tia Marcelina como símbolo da resistência dos terreiros e da preservação das tradições de matriz africana em Alagoas.

Durante a sessão, Cayo Raphael Rocha, do Maracatu Cambinda Nova de Alagoas, ressaltou que a manifestação vai além dos cortejos carnavalescos. Segundo ele, o trabalho envolve ensaios, pesquisas, ensino e preservação ao longo de todo o ano.

Sarah Dias também definiu o maracatu como uma ferramenta de transmissão de conhecimento. “O maracatu é uma pedagogia”, afirmou.

Pesquisa e preservação

A professora e pesquisadora Amanda Menezes, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Alagoas (PPGH/Ufal), apresentou aspectos de sua pesquisa sobre os maracatus alagoanos, desenvolvida com financiamento da Capes.

Batuqueira, Amanda lembrou que o folclorista Théo Brandão já apontava o maracatu como um dos folguedos populares nordestinos de mais evidente origem ou influência africana. Para ela, as pesquisas contribuem para recuperar histórias que permaneceram invisibilizadas e compreender o papel do maracatu na formação cultural e social de Alagoas.

Entre os convidados presentes estava a cantora alagoana Fernanda Guimarães, que destacou a dimensão social da manifestação. “O maracatu celebra a identidade e a diversidade do nosso povo, reconhecendo na cultura uma força social, um instrumento de cidadania e um fundamento essencial daquilo que somos”, afirmou.

Também participaram da sessão o deputado Judson Cabral (PT), o representante do Ministério da Cultura em Alagoas, Pedro Verdino, o secretário-geral do Sindicato dos Músicos de Alagoas, Marcelo Ferraz, representantes do movimento Tambores do Jaraguá e outros convidados.

Com informações Assessoria